Leilão 112 Antiguidades e Obras de Arte, Pratas e Jóias

846

Raro relógio de mesa


Estimativa

14.000 - 22.000


Sessão 4

14 Dezembro 2021



Descrição

André-Antoine Ravrio (1759-1814), com movimento de Jacques-François Vaillant
Em bronze dourado
Em forma de meia cúpula
Representando interior de sala, decorada ao estilo Império, com figura feminina a tocar piano
Cimalha em arco, com mostrador de relógio ao centro, decorada com instrumentos musicais em baixo relevo, ladeada por dois grifos e encimada por dois querubins segurando medalhão octogonal com busto
Mostrador em esmalte, com numeração romana, assinado Vaillant à Paris
A cena de interior retratada é tradicionalmente identificada como sendo uma representação da Imperatriz Josefina a tocar piano na sua residência, Château de Malmaison
França, séc. XIX

56x50x16,5 cm


Categoria

Relógios


ANDRÉ-ANTOINE RAVRIO (1759-1814)

André-Antoine Ravrio nasceu na cidade de Paris a 23 de outubro de 1759 e pertence à geração de artesãos do final do século XVIII que sobressaíram no início do século XIX no campo dos bronzes decorativos do 1º Império Francês. Contemporâneo de Pierre Philipe Thomire (1751- 1843), frequentemente considerado o bronzista mais importante da sua geração, devemos ter em conta que também foi uma figura eminente deste período. Nasceu no seio de uma grande família de artesãos e depois dos seus estudos dedicou-se à aprendizagem de trabalhar o bronze, tendo sido nomeado fundidor mestre no ano de 1777. No ano de 1786 comprou um negócio de ourives em Paris e, depois de alguns anos a administrar essa loja, no ano de 1806 estabeleceu-se na Rue de la Roi (hoje Rue de Richelieu) com oficina na Rue Montmartre. Inicialmente colaborou com marceneiros como Georges Jacob, Guillaume Benneman ou Ferdinand Bury, para quem fornecia os bronzes que ornamentavam e enriqueciam as suas peças. No entanto, a sua carreira de bronzista tomou um outro rumo durante o Império francês. Ao consultar os registos da sua oficina percebemos que empregava centenas de artesãos nas suas oficinas. No mesmo tempo o escultor e bronzista Jean-Jacques Feuchère (1807-1852) empregava 150 trabalhadores, e Pierre-Philippe Thomire cerca de 800 pessoas. Tornou-se famoso pelos pequenos bronzes que vendeu a uma clientela de prestígio, incluindo ao Imperador Napoleão I e à Imperatriz Josefina e no ano de 1810 foi nomeado o principal fornecedor de bronzes da Casa Imperial francesa. Por ocasião da redecoração dos palácios de Compiègne, Rambouiller, Saint Cloud e Fointanebleau, foi o principal fornecedor do guarde-meuble. Para além disto também trabalhou em projectos de exterior, nomeadamente para bronzes para o palácio Montecavallo em Roma. Ravrio criou várias peças importantes para o Palácio do Eliseu, entre as mais destacadas está um relógio chamado Le Char de Vénus. Nesta peça a deusa Vênus surge a conduzir uma carruagem enquanto um pastor fala com a Divindade do amor. Este tipo específico de design de relógio foi muito apreciado durante o império francês e foram criadas muitas variações. Embora tenha obtido sucesso durante o reinado de Luís XVI, alcançou fama sob o império de Napoleão Bonaparte. Participou na primeira Exposition de l'Industrie de Paris no ano 1803 e três anos depois ganhou uma medalha de prata. No mesmo ano, forneceu uma série de móveis de bronze para os apartamentos da Imperatriz Joséphine no palácio das Tulherias e em 1810 foi nomeado Bronzista do Imperador. Como tal, forneceu algumas das melhores peças de bronze, incluindo finas caixas de relógios esculpidos, girândolas e candelabros para as residências imperiais das Tulherias, Fontainebleau, Saint-Cloud, Versalhes, Compiègne e Rambouillet. Destacam-se também os seus trabalhos para o Quirinal em Roma, Monte-Cavallo, para Stupinigi perto de Turim, para o rei Ludwig da Holanda e para muitas outras figuras do século XIX. Com o sucesso, vieram recompensas substanciais, o que lhe permitiu uma vida de conforto numa grande casa cheia de obras de arte e mobiliário, bem como uma grande biblioteca de literatura clássica. É No Museu do Louvre que encontramos um retrato da autoria do seu primo Henri-François Riesener (filho do ebanista Jean-Henri Riesener) que nos mostra um homem próspero e bem-educado, sentado com livros, bronzes e um caderno de esboços aberto. Infelizmente, nenhum dos seus três filhos lhe sobreviveu, embora ele tivesse um filho adotivo, Louis-Stanislas Lenoir-Ravrio (1784-1846), que se tornou seu sócio em 1811 e continuou o negócio após sua morte. Presume-se que a sua morte a 4 de Outubro de 1814 esteja relacionada com o mercúrio que o terá envenenado ao longo da sua carreira profissional. Mas, não deixa de ser curioso que ainda em vida tenha doado um prêmio no valor de três mil francos para a descoberta de um meio de prevenir os perigos do uso do mercúrio na profissão de dourador. Exemplos do seu trabalho podem ser vistos em coleções privadas e públicas como o Mobilier National, o Musée du Louvre, a Royal Collection, o Metropolitan Museum of Art, o Stedelijk Museum, e o Smithsonian Design Museum onde é possível encontrar uma peça idêntica à que trazemos a leilão RELÓGIO Assente numa base plana trapezoidal suportada por quatro arcos ao longo da borda, esta peça apresenta-nos o interior de uma sala de música em cima de um palco que é coroado por um frontão semicircular – onde se encontra o mostrador do relógio – flanqueado por dois grifos e rematado por um par de querubins alados que agarram uma placa octogonal com o busto de Apolo. O mostrador circular do relógio é esmaltado de branco e ladeado por troféus de lira clássicos. O interior apresenta-nos um fundo com uma grande porta ao centro, decorada com duas victorias de samotrácia, e duas janelas laterais que estão escondidas por cortinas. No centro da composição está uma senhora sentada numa cadeira de estilo Império que toca piano. A minucia do detalhe mostra-nos os pés do instrumento musical em forma de grifo alado e suporte para partituras vertical. Frontão é ladeado por dois grifos e encimado por um par de querubins alados segurando uma placa octogonal com um busto de Apolo. A assinatura “Vaillant à Paris” que surge no mostrador de esmalte é a do relojoeiro Louis-Jacques Vaillant. Um dos mais importantes relojoeiros parisienses do 1º Império francês. Muito provavelmente da família do também relojoeiro francês Jacques-François Vaillant. A sua formação passou pelas oficinas da família na Qua ides Augustins, tornando-se mestre a 12 de fevereiro de 1787. Rapidamente alcançou sucesso junto de influentes colecionadores. No ano de 1800 tinha a sua oficina na rue de la Tixéranderie e de 1812 a 1817 na rue de la Verrerie. As suas peças surgem nos inventários de personalidades como o visconde CharlesMarie-Philippe Huchet de la Bedoyère (1786-1815), Charles-Jean-François de Malon de Bercy (1779-1809) e do conde de La Rochefoucauld, Alexandre-François.

TIAGO FRANCO RODRIGUES

BIBLIOGRAFIA/LITERATURE: Denise Ledoux-Lebard – Versailles - Le Petit Trianon - Le mobilier des inventaires de 1807, 1810, et 1839, Paris 1989. Elke Niehüser, “Die Französische Bronzeuhr”, 1997. Ernest Dumonthier – Les Bronzes du Mobilier National – Pendules et Cartels, Bronzes d’éclairage et de chauffage, 1911. G. Brusa, A. Griseri and S. Pinto – Orologi negli arredi del Palazzo Reale di Torino e delle residenze sabaude, 1988. Hans Ottomeyer and Peter Pröschel – Vergoldete Bronzen, 1986. M. Agnellini, “Orologi Antichi – Storia e Produzione dal Cinquecento all’Ottocento”, 1993, p. 160. Pierre Kjellberg – Encyclopédie de la Pendule Française du Moyen Age au XXe Siècle", 1997.



Leilão Terminado