Leilão 150 Antiguidades e Obras de Arte, Pratas e Jóias

25

Raríssimo tankard com tampa


Estimativa

22.000 - 26.000


Sessão 1

4 Junho 2025



Descrição

Em grés vermelho vidrado a negro (Böttger Steinzeug), com decoração pintada a frio e dourada, e montagens em prata
De corpo cilíndrico, com pega em cinta, moldado em grês vermelho de Böttger, com vidrado negro brilhante. A decoração aplicada a frio com lacas coloridas e dourado, é atribuível à oficina de Martin Schnell, representando motivos de inspiração oriental - embora visivelmente desgastada, reconhecem-se ainda vestígios de figuras, arquitectura e elementos vegetalistas de inspiração chinesa, próximos das composições chinoiserie características das peças decoradas por Martin Schnell e pela sua oficina para corte de Dresden.
A tampa articulada e a base são em prata moldada e finamente gravada. Ao centro da tampa encontra-se incrustada uma medalha com o retrato da Rainha Sofia Amélia da Dinamarca e Noruega, rodeada pela divisa “SPES MEA IN DEO” (em latim: A minha esperança está em Deus). A circundar a medalha estão gravadas as iniciais NHSM ✶ AKPD e a data 1743. A superfície da tampa é ornamentada com enrolamentos vegetalistas e outros motivos fitomórficos, apresentando sobre a articulação da dobradiça um thumbpiece esférico segmentado por nervuras horizontais em relevo.
Marcado a negro na base com o número “25”
Alemanha, Meissen, c. 1710–1715
Medalha comemorativa com o retrato da Rainha Sofia Amélia da Dinamarca e Noruega datável de cerca de 1650
Montagens em prata, provavelmente Dinamarca, datadas de 1743, com marca de ourives pouco legível, não identificada
Sem marcas portuguesas ao abrigo do Decreto-Lei nº 120/2017, de 15 de Setembro - art. 2º, nº 2, alínea c)

Alt.: 24,5 cm


Categoria

Pratas


Informação Adicional

Bibliografia:
Horváth, Hilda; Szilágyi, András (eds.), Remekművek az Iparművészeti Múzeum gyűjteményéből, Iparművészeti Múzeum, Budapeste, 2010, cat. 75;
Monika Kopplin; Gisela Haase, Sächßisch Lacquitre Sachen: Lackkunst in Dresden unter August dem Starken, Museum für Lackkunst, Münster, 1998, pp. 14, 79;
Sotheby’s, Sammlung Oppenheimer | Important Meissen Porcelain, New York, 14 de Setembro de 2021, lote 4 (vendido por 252.000 USD);
Museum of Applied Arts, Budapeste, Tankard with lid – Chinoiserie, inv. 5861, coleção de Augusto II da Polónia;
Museum of Fine Arts, Boston, Tankard, Meissen, c. 1710–15, inv. 1983.607
Museum of King Jan III’s Palace at Wilanów, Martin Schnell (1675?–1740?);
Syndram, Dirk; Weinhold, Ulrike (eds.), Böttger Stoneware: Johann Friedrich Böttger and Treasury Art, Bayerisches Nationalmuseum, Munique, 2009, p. 123.


Böttger: Arte, Alquimia e Exotismo na corte de Augusto II

Produzido entre 1710 e 1715 na recém-fundada fábrica de Meissen, este raríssimo tankard em grés vermelho vidrado a negro (Böttger Steinzeug) pertence a um grupo muito restrito de peças decoradas com pintura a frio, em estilo chinoiserie, e posteriormente montadas em prata. O material, desenvolvido por Johann Friedrich Böttger antes da invenção da porcelana europeia, era valorizado pela sua densidade, brilho e capacidade de ser polido como uma pedra semipreciosa. A aplicação de um vidrado negro lustroso permitia depois a intervenção de decoradores especializados, como Martin Schnell, que ornamentavam estas peças com lacas coloridas e dourado, ao gosto da laca oriental.
Johann Friedrich Böttger (1682–1719) foi inicialmente alquimista ao serviço de Augusto II da Polónia, encarregado de descobrir a pedra filosofal. Em vez disso, desenvolveu o primeiro grés europeu de alta qualidade, e depois a primeira porcelana dura produzida na Europa.
O grés vermelho de Böttger (Böttger Steinzeug) surgiu por volta de 1707–1708, e rapidamente se tornou uma das mais prestigiadas formas de produção cerâmica da Europa, ainda antes da descoberta da fórmula de porcelana verdadeira (1710).
As primeiras peças em grés, sobretudo com vidrado negro, foram objeto de experimentação artística intensa, incluindo pintura a frio e montagens em metais preciosos, destinadas quase exclusivamente à corte saxónica. A produção foi associada desde muito cedo a uma estética orientalizante, o que se coaduna com o gosto de Augusto II pelas porcelanas e lacas chinesas e japonesas.
A decoração, aplicada a frio com lacas coloridas e dourado sobre o vidrado já cozido, imitava os efeitos visuais da laca asiática e representava composições adaptadas ao gosto europeu. A extraordinária delicadeza desta técnica explica o facto de tão poucas peças terem sobrevivido com a decoração original intacta. No entanto, mesmo nos exemplares mais desgastados, como o presente, o valor técnico, histórico e artístico mantém-se inquestionável, pela raridade do conjunto e pela sua importância no contexto da produção cerâmica europeia do início do século XVIII.
A atribuição desta decoração à oficina de Martin Schnell é hoje amplamente aceite. Schnell foi nomeado Hoflackierer (lacador da corte) por Augusto II em 1710, tendo aplicado decoração em laca não só em mobiliário, painéis murais e instrumentos musicais, como também em grés vidrado e porcelana. As suas obras estão entre as mais sofisticadas expressões do gosto chinois da corte de Dresden. O exemplar do Museum of Applied Arts de Budapeste (inv. 5861), inteiramente decorado com cenas pintadas por Schnell, oferece um ponto de comparação direto com o presente lote. Já o exemplar do Museum of Fine Arts de Boston apresenta um friso dourado junto ao bordo que é formalmente muito semelhante ao do nosso tankard.
O valor destas peças no mercado internacional de arte é igualmente indicativo da sua raridade e relevância. Em 2021, um exemplar comparável - decorado com figuras chinesas, flores, rochedos e aves em dourado e esmaltes sobre fundo negro, e com montagem em prata dourada - foi vendido pela Sotheby’s Nova Iorque por 252.000 USD, no leilão Sammlung Oppenheimer | Important Meissen Porcelain, 14 de Setembro de 2021, lote 4.



Leilão Terminado