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Preço sob consulta
Sessão 1
20 Julho 2026
Descrição
Em prata
Formato piriforme integralmente percorrido por um profundo e dinâmico trabalho de canelado helicoidal oblíquo
Parcialmente decorado com reservas cinzeladas e gravação de motivos rocaille
Tampa de charneira bombeada e sobreposta por anéis concêntricos de canelados, culminando num pomo em forma e balaustrada
Asa de dupla voluta em forma de "S" invertido
Séc. XVIII
Sem marcas ao abrigo do Decreto-Lei nº 120/2017, de 15 de Setembro - art. 2º, nº 2, alínea c)
(sinais de uso, uma com uma fissura horizontal na zona do gargalo, restauro na charneira)
Alt.: 38,5 cm
4812 g
Categoria
Pratas
Informação Adicional
Exposições:
Ourivesaria Portuguesa & os seus Mestres. Porto: Museu Nacional Soares dos Reis, 2007
Bibliografia:
AA.VV. - Ourivesaria Portuguesa & os seus Mestres. Porto: Museu Nacional Soares dos Reis, 2007, p. 169;
Breve nota sobre um par de terrinas em pata do Rio de Janeiro de meados do século XVIII
Este par de terrinas em prata, produzidas no Rio de Janeiro e datáveis de meados do século XVIII, inserem-se no repertório da ourivesaria luso-brasileira de aparato, e são um testemunho particularmente expressivo da cultura material associada à mesa das elites da época.
Estamos perante peças que seguem uma tipologia, de corpo ovalado, tampa côncava de encaixe e pegas laterais, correspondente a uma forma concebida para o serviço de mesa, ligada à apresentação de preparos quentes, como sopas, caldos enriquecidos e outros alimentos servidos com molhos, cuja conservação do calor e apresentação cuidada eram essenciais no contexto de uma refeição formal. Este modelo de terrina não deve, contudo, ser entendido como um simples recipiente utilitário.
No seu tempo, estas eram peças funcionais e representativas, destinada a integrar o aparato da mesa e a participar activamente na encenação de opulência, ordem e privilégio própria dos serviços cerimoniais. Se, por um lado, a tampa permitia preservar a temperatura e resguardar o conteúdo até ao momento do serviço, por outro, a escala, o brilho da prata e a coerência formal do conjunto reforçavam a visibilidade da peça no contexto da baixela.
No panorama dos costumes da elite do Rio de Janeiro setecentista, estas terrinas articulam-se com a progressiva recepção dos modos franceses de servir, difundidos na Europa e apropriados pelas classes dominantes do mundo luso- atlântico.
Estar à mesa, mais do que um espaço de alimentação, afirmava-se como lugar de sociabilidade regulamentada, de exibição de gosto e de afirmação hierárquica. O serviço “à francesa”, assente na apresentação simultânea e simétrica dos pratos, favorecia a presença de peças próprias, entre as quais as terrinas que ocupavam um lugar de relevo, quer pela sua função prática, quer pelo seu valor visual no arranjo geral da mesa.
Quanto à sua disposição, este tipo de terrina seria normalmente colocado nas linhas de simetria do serviço, frequentemente em posição central ou semi-central, em articulação com travessas, pratos cobertos, salvas e outros elementos. Não surgia isolado, mas integrado num discurso visual amplo, em que cada peça contribuía para a legibilidade do aparato e para a imagem de riqueza ordenada que a mesa devia projectar. A sua presença assinalava uma mesa servida segundo padrões cultos e actualizados, próximos das convenções aristocráticas europeias. Do ponto de vista formal, estas peças seguem um modelo que remete para as terrinas ovais em porcelana da China da mesma época, confirmando a circulação e a transferência de formas entre diferentes meios artísticos. É particularmente relevante que a literatura museológica reconheça que certas tipologias de terrinas em porcelana chinesa de exportação derivam, na sua origem, de moldes europeus em metal, provavelmente em prata, posteriormente copiados e reinterpretados nas manufacturas chinesas ao longo do século XVIII. Este dado ajuda a compreender o carácter transversal do modelo. Salienta-se, assim, que não se trata apenas da influência oriental sobre a prata, mas antes de um processo mais complexo de circulação de protótipos entre a Europa, o espaço atlântico e a China. Neste contexto, a produção carioca destas terrinas revela a capacidade das oficinas locais assimilarem repertórios internacionais e vertê-los em prata, material por excelência do prestígio doméstico e cerimonial.
O Rio de Janeiro, enquanto centro económico e administrativo de importância crescente ao longo do século XVIII, participava intensamente nas redes de circulação de metais preciosos, objectos sumptuários e modelos de gosto. A ourivesaria ali produzida respondia ao gosto de uma clientela apta a reconhecer e a valorizar formas cosmopolitas, adaptadas ao enquadramento social e material da colónia.
A circulação destas peças deve ser entendida em sentido lato, abrangendo não apenas a circulação de objectos acabados, mas também o movimento de modelos, desenhos, hábitos de consumo e referências formais. Terrinas desta natureza podiam integrar baixelas encomendadas localmente, circular por via hereditária, constar de inventários e, como sucede com frequência no domínio da prata, ser preservadas, transformadas ou refundidas, em função da evolução do gosto e das necessidades patrimoniais. A sua sobrevivência é, por isso, especialmente significativa.
Acresce que existem paralelos tipológicos em colecções museológicas internacionais, sobretudo no domínio da porcelana de exportação chinesa e das artes decorativas europeias. O sistema Museus e Monumentos de Portugal conserva, por exemplo, uma terrina com travessa do século XVIII cuja nota de catálogo explicita que esta tipologia teria origem num molde europeu em metal, provavelmente em prata, posteriormente reproduzido em porcelana chinesa. O Museu Medeiros e Almeida sublinha igualmente, a propósito de terrinas de exportação chinesa, que estas formas respondiam ao gosto europeu e se integravam em serviços de aparato destinados à exposição e ao deleite visual da mesa cerimonial. Embora esses exemplos sejam em porcelana, são particularmente úteis para enquadrar estas peças em prata, justamente porque evidenciam a partilha internacional do modelo e a sua ampla recepção no século XVIII.
Considerações finais
Estas terrinas devem, pois, ser entendidas como peças de serviço e de representação, destinadas a conter e apresentar alimentos quentes à mesa, mas igualmente concebidas para ocupar um lugar de destaque no aparato doméstico das elites. A sua forma, associada à tradição das terrinas ovais de gosto internacional, a produção no Rio de Janeiro e a relação com os costumes de mesa moldados por tendências francesas e por repertórios orientais fazem delas exemplares de assinalável interesse histórico, tipológico e coleccionístico.
TIAGO FRANCO RODRIGUES
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