Leilão 104 Antiguidades e Obras de Arte, Pratas e Jóias

77

Garniture de cinco peças


Estimativa

20.000 - 25.000


Sessão 1

14 Abril 2021


Descrição

Em porcelana da China
Companhia das Índias
Decoração com esmalte castanho Batavia e reservas em esmaltes Família Rosa
Pomo das tampas em forma de Cão de Foo dourado
Composto por três potes com tampa e dois canudos
Período Qianlong, c. 1760

Alt.: 47 cm


Categoria

Porcelanas


Nota adicional

A história das garnitures está relacionada com o desenvolvimento da cerâmica como elemento central na decoração de interiores. Embora os vasos de cerâmica tenham começado a ser usados para fins ornamentais na Florença do Renascimento, só no século XVII, quando a porcelana chinesa de exportação estava no auge, é que esse costume se espalhou pela Europa.
Em 1602, para regularizar e proteger o comércio com a Ásia, os holandeses criaram a Companhia Holandesa das Índias Orientais (VOC) e, durante os dois séculos seguintes, foi este o principal pilar do capitalismo e do imperialismo holandês. Os navios da VOC não traziam apenas especiarias, mas, também, mercadorias de luxo (como a porcelana chinesa), que acabaram por ofuscar a influência portuguesa e coleccionismo e exibição se populalizaram entre a elite europeia. A título de exemplo temos a colecção de Petronella de la Court (1624-1707), esposa de um importante comerciante de Amesterdão, que possuía 1800 objectos de porcelana chinesa exibidos por toda a casa.
As primeiras garnitures foram feitas em porcelana chinesa, mas a moda de agrupar vasos sobre cornijas é um fenómeno europeu. Na verdade, o único conjunto feito pelos chineses para os seus próprios fins era conhecido como wugong, sendo um conjunto de porcelana (composto por dois vasos, dois castiçais e um queimador de perfume), projectado para o altar dos templos. Habitualmente, a ideia de que as garnitures foram inspiradas nestes objetos sagrados é aceite, mas, somente em 1735 com a publicação de Description de l’Empire de la China por Jean Baptiste du Halde, é que os Ocidentais ficaram a conhecer da existência desta tipologia, que surge pela primeira vez na Holanda no último quartel do século XVII.
Com a importação da porcelana chinesa, surgem duas novas tipologias: o pote com tampa e os canudos que eram frequentemente adquiridos aos pares e destinavam-se a ser exibidos no topo de armários ou de consolas de lareira, sendo recorrente a sua deslocação, durante os meses de verão, para a frente da lareira.
Aos poucos, os dirigentes da VOC começaram a enviar pedidos de encomendas para as fábricas de porcelanas chinesas, contribuindo para que começasse a chegar ao mercado holandês conjuntos de vasos que eram produzidos pelos chineses especificamente para serem exportados. Em 1644, a importação de porcelana chinesa pela VOC diminuiu drasticamente devido aos distúrbios civis na China. Foi nessa altura que muitos ceramistas holandeses tiveram a oportunidade de entrar no mercado, surgindo exemplos de produção como o da Cerâmica Delft. Quando, na década de 1680, o comércio de exportação foi retomado, potes e canudos ornamentados com o mesmo padrão foram produzidos em Jingdezhen especificamente para o Ocidente. A moda continuou ao longo do século XVIII, com quase todas as fábricas de porcelana chinesa a produzirem exemplos. As garnitures continuaram em voga até aos meados do século XIX, época em que o vaso individual se tornou popular e os conjuntos foram desmantelados e dispersos.
O presente conjunto, de três potes com tampa e dois canudos, ostenta uma decoração totalmente preenchida pelo tom castanho, com uma grande reserva central, em forma de folha recortada, preenchida com esmaltes da família rosa representando flores e pássaros. A superfície é composta por outras pequenas reservas de diferentes recortes. No bojo, nos pés e nas tampas encontram-se frisos decorativos com esmaltes da família rosa.
Este esmalte castanho ao qual se dá o nome de Batavia, foi particularmente apreciado pelos holandeses, que assim o baptizaram porque a Companhia das Índias Orientais Holandesas estava sedeada na cidade de Batavia (território que corresponde actualmente à cidade de Jacarta). No entanto, é de evidenciar o facto de este baptismo traduzir mais a preferência dos holandeses por este tipo de porcelanas do que propriamente a proveniência dos barcos que as transportavam até à Europa.
Não obstante as suas origens, uma vez que na Ásia já era utilizada no século XVI pelos japoneses na região da cidade de Arita (a antiga província de Hizen, no noroeste da ilha de Kyush), foi na 1º metade do século XVIII que este esmalte se tornou popular nas porcelanas chinesas de exportação, como é possível evidenciar em algumas pinturas holandesas, servindo de exemplo o quadro de Willen van Mieris (1662-1747), assinado e datado de 1713 “A woman and a fish pedlar”, onde se pode contemplar a representação de algumas chávenas e pires com esta decoração.
São várias as colecções museológicas que nos mostram exemplos destas peças. A nível internacional destaca-se a colecção que encontramos na Gray Art Gallery and Museum em Hartlepool, no Reino Unido. Em termos nacionais destacam-se exemplos nas colecções da Casa-Museu Medeiros e Almeida, do Palácio Nacional da Ajuda, do Palácio Nacional de Queluz e do Palácio da Pena, bem como no Museu dos Biscainhos e no Museu Nacional Soares dos Reis. Destes exemplos são os dois canudos das colecções do Palácio da Pena, os mais semelhantes aos que compõem esta garniture. Curioso é saber-se que essas duas peças foram cedidas por empréstimo ao Secretariado Nacional da Informação, para servirem nas decorações das dependências e da mesa para o almoço que decorreu no Mosteiro de Alcobaça durante a Visita Oficial da Rainha Elizabeth II em Fevereiro de 1957.

Bibliografia:
Baoping Li, “Batavian” style Chinese export porcelain: origins, recent finds and historic significance, in The Hungarian Southeast Asian Research Institute (ed.), The Ca Mau Shipwreck Porcelain [1723-1735], vol.2, Budapest, Magyar Indokína Társaság Kft, 2012, p.23-30.
J. Banham, Encyclopedia of Interior Design, Fitzroy Dearborn Publishers, 1997, p. 474.
J. Yiu, “On the Origin of the Garniture de Cheminée,” in the American Ceramic Circle Journal, vol. XV, 2009, pp. 11-23.
P.F. Ferguson, Garnitures: Vase Sets from National Trust Houses, V&A Publishing, London, 2016, p. 3.



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