642
Excepcional Cristo Crucificado
Estimativa
200.000 - 300.000
Sessão 3
16 Outubro 2025
Valor de Martelo
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Escultura em marfim
Cruz em ébano com terminais, resplendores e placa INRI em prata dourada Sem marcas portuguesas, ao abrigo do Decreto-Lei nº 120/2017, de 15 de Setembro - art. 2, nº 2, alínea c)
Itália, provavelmente Nápoles, c. 1700-1730
(pequenas faltas e defeitos)
76x 63 cm (Cristo)
119x82 cm (total)
Categoria
Objectos
Informação Adicional
Com certificado CITES nº. 25PTLX04466C
Proveniência:
Quinta das Areias, colecção da família Pereira Palha.
Considerado um material precioso desde a Antiguidade, o entalhe de marfim, após um declínio nos séculos XV e XVI, conheceu na Europa renovado brilhantismo nos séculos XVII e XVIII, impulsionado pelo recrudescimento do comércio e pela crescente disponibilidade de marfim africano de alta qualidade e de grandes dimensões (veja-se Schmidt, Sframeli 2013). Esculpida em marfim de elefante, esta monumental imagem de Cristo Crucificado foi executada em diferentes secções. A peça maior, aproveitando a curvatura natural da presa, compreende o corpo de Cristo - a cabeça com sua coroa de espinhos integral, as pernas e os pés. Os braços estendidos e em ângulo foram entalhados separadamente e fixados ao corpo através de modos tradicionais de assemblagem de madeira, em concreto a união de furo e respiga, sendo a parte saliente do cendal do lado esquerdo unida do mesmo modo. Representando com minúcia a ossatura, a musculatura e as veias de Cristo, o mestre entalhador recriou na perfeição o seu corpo no exacto momento da morte. A cabeça de Cristo inclina-se para a direita, tombando sobre o peito e repousando no ombro, com as pálpebras e a boca firmemente cerradas. Os dedos, ainda em parte contraídos, exprimem os últimos instantes de dor antes da libertação pela morte. O cendal ou perizonium, atado do lado direito de Cristo e adensado em profundas e abundantes pregas, enrola-se numa corda de largos e caprichosos laços e seus pingentes de borlas, sendo a fímbria rendilhada e vazada com extrema minúcia. Embora serena na expressão, a fisionomia de Cristo é bem vincada: as sobrancelhas ausentes, o nariz alongado, a barba entalhada em delicados caracóis e o cabelo representado quase que em mechas individuais. A coroa de espinhos estilizada e a corda enlaçada revelam um virtuosismo do entalhe em negativo que testemunha a superior mestria do entalhador. Também estilizadas são as grandes e invulgares chagas em forma de estrela nos joelhos e as veias salientes dos braços.
Apesar de representar Cristo Morto, esta nossa escultura combina dois tipos iconográficos concebidos em meados de Seiscentos pelo grande escultor italiano do Barroco pleno, Alessandro Algardi (1598-1654). Do Cristo Vivo de Algardi - também chamado tipo ‘Pallavicini’, criado nos primeiros anos da década de 1640 - a nossa peça retoma os braços estendidos e em ângulo, os dedos quase cerrados, o pé direito pregado sobre o esquerdo (um elemento muito invulgar nesta época) e o cendal esvoaçante cingido por uma corda sinuosa. Do Cristo Morto de Algardi (o tipo ‘Alamandini’), o entalhador adoptou apenas a inclinação da cabeça com a coroa de espinhos integral e a chaga aberta no peito. Ambos disseminaram-se rapidamente por toda a Europa, em modelos tridimensionais e em gravuras, mas foi o Cristo Vivo que se tornou o crucifixo barroco mais popular, inspirando versões nos mais diversos materiais (veja-se Mazzarelli 2013). A precisão anatómica do nosso marfim - em especial a caixa torácica, o modelado subtil dos mamilos, o talhe em profundidade da coroa de espinhos e da corda -, embora derivada dos protótipos de Algardi, recorda também a obra do entalhador francês Claude Beissonat. Provavelmente natural do Franche-Comté, Beissonat viveu em Espanha por volta de 1664, fixando-se depois em Nápoles, então sob domínio espanhol, onde inscreveu com o seu nome várias esculturas em marfim (veja-se Estella Marcos 2011). Diversas obras assinadas por ele conservam-se em Espanha, entre as quais dois Crucifixos que apresentam notáveis afinidades com a escultura aqui apresentada. O paralelo mais próximo é o Cristo Vivo da Real Academia de Bellas Artes de San Fernando, Madrid, uma imponente obra de 86,0 cm de altura incluindo a base e a cruz em ébano (veja-se Estella Marcos 1984, vol. 2, p. 71, cat. 104). Embora não se trate de uma escultura que possamos atribuir a Beissonat, este Crucifixo foi sem dúvida produzido na Itália de Setecentos, talvez em Nápoles, por um artista por certo influenciado pelo seu estilo e suas obras.
Uma maior estilização de certos elementos anatómicos, como as veias e as chagas em forma de estrela, bem como o decorativismo do cabelo ondulado, sugerem uma datação já setecentista. Uma análise atenta da gramatica ornamental usada na cruz reforça esta cronologia. Executada em ébano com simples modenaturas, apresenta elementos em prata dourada: terminais nas extremidades dos braços, um resplendor quadripartido na intersecção exterior de cada braço e um resplendor quadrado sobre a cabeça de Cristo. O resplendo é cinzelado com um friso de pétalas, enquanto os terminais vazados e recortados são polilobados e ricamente decorados com palmetas em forma de concha e enrolamentos de túlipas e outras flores estilizadas, e estreitas folhas de acanto. Os elementos em “C”, usados a par da gramática floral típica da Europa dos inícios de Setecentos - sobretudo em França durante a Régence (1715-1723) -, contrastam com o incipiente ornamento rocaille (c. 1710-1760) do titulum crucis. A tipologia e execução dos elementos em prata apontam também para uma origem napolitana, reforçando a atribuição quer da cruz quer da escultura em marfim ao mesmo centro de produção (veja-se Catello, Catello 1973). Um exemplar comparável, embora muito mais pequeno (26,5 cm de altura), no Victoria and Albert Museum, Londres (inv. A.20-1949), conserva grande parte da policromia e do douramento originais, tendo sido nos últimos anos erradamente identificado como indo-português (veja-se Trusted 2013, p. 379, cat. 375). Tal como o nosso Crucifixo, a cabeça de Cristo pende para o ombro direito, e está de olhos fechados, e com o pé direito pregado sobre o esquerdo. Não só a posição é idêntica, como o tratamento da corda, do cendal ondulante e das veias salientes revela afinidades notáveis. As grandes esculturas devocionais em marfim produzidas no virar do século XVIII têm despertado recentemente grande entusiasmo no mercado de arte. Em 2024, o Louvre adquiriu em leilão uma importante escultura em marfim (54,5 cm de altura) de Nossa Senhora da Conceição (inv. RFML.OA.2024.9.1), executada em Nápoles por Claude Beissonat. É previsível que o nosso monumental Crucifixo venha a suscitar idêntico interesse. Infelizmente, como tantas vezes sucede com obras-primas em marfim deixadas sem assinar, o nome do entalhador responsável por este extraordinário Crucifixo permanece desconhecido; a própria obra, porém, proclama a sua extraordinária maestria.
Hugo Miguel Crespo
Centro de História, Universidade de Lisboa
Bibliografia / Literature
Elio Catello, Corrado Catello, Argenti Napoletani dal XVI al XIX secolo, Napoli, Edizione d'arte Giannini, 1973; Margarita M. Estella Marcos, La escultura barroca de marfil en España. Escuelas europeas y coloniales, 2 vols., Madrid, Consejo Superior de Investigaciones Cientificas - Instituto Diego Velázquez, 1984; Margarita M. Estella Marcos, “Esculturas italianas de marfil en España de los siglos XVI al XVIII con nuevas noticias sobre Gualterio, Beissonat y Caffieri”, in Regine Marth, Marjorie Trusted (eds.), Sculpture Studies in Honour of Christian Theuerkauff, München, Hirmer Verlag, 2011, pp. 22-29; Carla Mazzarelli, “New documents for Algardi’s Alamandini ‘Crucifix’, ‘a beautiful and famous thing”, The Burlington Magazine 155 (2013), pp. 769-773; Eike D. Schmidt, Maria Sframeli (eds.), Diafane Passioni. Avori barocchi dalle corti europee (cat.), Firenze, Sillabe, 2013; Marjorie Trusted, Baroque & Later Ivories, London, Victoria & Albert Museum, 2013
Leilão Terminado