106
Pot-a-oille Luis XVI por Jean-Baptiste-François Chéret
Estimativa
25.000 - 30.000
Sessão 1
25 Março 2026
Valor de Martelo
Registe-se para aceder à informação.Descrição
Composta por: presentoir, terrina e tampa
Em prata de 958/000
Terrina elevada sobre pedestal, com decoração parcialmente polida, asas salientes e relevadas
Tampa com pomo relevado em forma de legume com folhas
Decoração gravada representando Armas de Charles Bennet, 4.º Conde de Tankerville (1743-1822) e da sua esposa Emma, filha de Sir James Colebrooke (1722-1761)
As armas posteriores correspondem às da família real grega, provavelmente de Jorge II, Rei dos Helénicos (1922-1947)
Assente em plateau circular, decorado com motivos relevados representando folhas de loureiro, assente em quatro pés em forma de garra e com idêntica decoração gravada
França, séc. XVIII
Marca de carga da cidade de Paris (1783-1789), marca da maison commune de Paris (1787), marca de isenção de imposto e marca de ourives de Jean-Baptiste-François Chéret (reg. 1759)
(adaptação posterior no pé, pequenos sinais de uso)
Alt.: 36 cm
4912,1 g
Categoria
Pratas
Informação Adicional
Colecção particular;
Lote 690 do leilão da Christies de Paris: The collector (Abril de 2023);
Provavelmente descendentes do Rei Jorge II dos Helénicos (1890-1947);
Até aos anos de 1930 foi da colecção dos descendentes de Charles Bennet, 4.º Conde de Tankerville (1743-1822)
Nota adicional sobre o Lote
Do rococó para a simetria neoclássica. O Pot-à-Oille de Jean-Baptiste-François-Chéret
POT-À-OILLE
A designação que damos ao lote que trazemos agora a leilão refere-se originalmente ao recipiente utilizado para servir a sopa designada de oille. Esta sopa é uma preparação rica em carnes e legumes, semelhante à tradicional olla podrida espanhola, e é considerada, na culinária francesa, um dos antecedentes do pot au feu. Por extensão, o termo passou a aplicar se à grande terrina em que este preparado era levado e apresentado à mesa, geralmente com tampa e, por vezes, com prato de apresentação, assumindo um papel de particular destaque nos serviços de aparato do século XVIII. O lote que agora apresentamos foi, inicialmente, concebido para essa função, mas alterações posteriores, realizadas no fundo, impossibilitaram na de a manter.
No contexto do service à la française, em que numerosos pratos eram dispostos simultaneamente sobre a mesa, os pots à oille ocupavam posições estratégicas, habitualmente nas extremidades ou em pontos de reforço da simetria, contribuindo para a composição cenográfica do banquete. A volumetria pronunciada, as asas laterais moldadas e o remate escultórico da tampa conferiam à peça uma forte presença visual, transformando um utensílio funcional num elemento de ostentação e de prestígio social.
Do ponto de vista tipológico, o pot à oille distingue se das terrinas comuns pela escala mais generosa, pela presença recorrente de tampa alta com pega escultórica (por vezes em forma de legumes, flores ou emblemas heráldicos) e pelo eventual uso de prato de apresentação, que protegia a toalha e reforçava o efeito de aparato. A forma podia variar entre perfis ovais e circulares, com corpo arredondado, ombros marcados e pés recortados ou em pedestal, refletindo a evolução do gosto, do rococó para o neoclassicismo, ao longo da segunda metade do século XVIII.
A PRODUÇÃO DE PRATA FRANCESA NO FINAL DO SÉCULO XVIII
Esta peça insere-se na produção de ourivesaria francesa da segunda metade do século XVIII, época que se constitui como um relevante testemunho material da transição estética e cultural, período no qual se consolidou o gosto pelo neoclássico. Este estilo, caracterizado pelo rigor formal e pela depuração ornamental, surgiu em reação aos excessos do rococó, evidenciando uma crescente valorização da simetria, da sobriedade decorativa e da erudição arqueológica.
Contudo, apesar da maior austeridade formal, a excelência técnica manteve-se inalterada, perpetuando a reputação dos ourives franceses e garantindo a circulação das suas obras no contexto das cortes europeias. A cidade de Paris, enquanto epicentro da ourivesaria, desempenhou um papel fulcral neste processo, atraindo encomendas não apenas da aristocracia francesa, mas também de monarquias estrangeiras, nomeadamente das cortes da Rússia e de Portugal.
Entre os ourives mais eminentes deste período destaca-se François Thomas Germain (1726 1791), ourives do rei e herdeiro da prestigiada oficina do seu pai, Thomas Germain (1673 1748). Na sua obra, que sobreviveu até aos dias de hoje, observamos um equilíbrio entre os últimos resquícios do rococó e as novas tendências neoclássicas, manifestando um domínio excecional da gramática decorativa e dos processos técnicos da época, combinando opulência estrutural com uma notável depuração formal. Desta época é exemplo a baixela encomendada pelo Rei D. José I de Portugal logo após o terramoto de 1755.
Outro caso paradigmático da magnificência da ourivesaria francesa deste período são as peças encomendadas pela Imperatriz Catarina II da Rússia (1729-1796) ao ourives Robert Joseph Auguste (1723-1805), do qual se conserva um par de saleiros e pimenteiros nas coleções do Museu Calouste Gulbenkian.
O OURIVES
O ourives desta peça é Jean-Baptiste-François-Chéret (1728–1791). Analisando os seus dados biográficos, facilmente se percebe que descende de uma dinastia de ourives de Paris. A sua obra destaca-se pela extraordinária capacidade de articular o rococó tardio com o neoclassicismo, que culminam numa transição harmoniosa entre ambos os estilos. Filho, neto e bisneto de mestres ourives, Chéret integrava uma linhagem consolidada desde o século XVII: o seu pai Jean Chéret (?-c.1740), o avô François Chéret (?–1720) e o bisavô Jean Chéret (?–1690) exerceram todos o ofício em Paris, contribuindo para o prestígio da Communauté des orfèvres de Paris. Iniciou a aprendizagem por volta dos doze anos, provavelmente sob a orientação de Louis Grouvelle (c.1705–após 1788), mestre ourives parisiense e seu futuro sogro; em abril de 1759 contraiu matrimónio com Marie Catherine Grouvelle (c.1735–1799), filha deste, sendo admitido como mestre quatro meses depois. A partir desse momento consolidou uma carreira notável, marcada tanto pela inovação estilística como pelo exercício de cargos administrativos de prestígio: garde (1775), contabilista (1776), conseiller contrôleur du roi no Hôtel de Ville (1777), conseiller contrôleur général (1783), grand garde da comunidade (1787–1788) e controlador das rendas (1789–1790). Faleceu a 25 de agosto de 1791, no limiar da Revolução Francesa, deixando uma descendência que perpetuou o ofício familiar.
LINGUAGEM ESTILÍSTICA E INOVAÇÃO
Conforme referido nos Almanachs de 1772, Jean-Baptiste-François-Chéret afirmou-se como criador de modèles de goût de son invention e, como membro da Academia de Belas Artes de Marselha, revelou uma sólida formação de desenhador.
Herdeiro do refinamento rococó de Jean Charles Delafosse (1734–1791), reinterpretou a sua linguagem através de motivos neoclássicos iniciais — guirnaldas, pérolas e pomos em forma de pinho —, posicionando-se como precursor do estilo Transition, distinto da abordagem mais radical de contemporâneos como Robert Joseph Auguste (1723–1805).
CLIENTELA E PRODUÇÃO
A sua clientela foi diversa, abrangendo tanto a nobreza provincial como a burguesia parisiense. Encontramos figuras de destaque como o ministro Charles Alexandre de Calonne (1734–1802), cortesãos como Monsieur de Nicolaÿ (marquês de Goussainville) e o duque de Rohan com Élisabeth de Montmorency, bem como estrangeiros de relevo, como o conde Branicki.
Próximo de Jacques Nicolas Roëttiers (1736–1788) — que lhe cedeu o cargo de conseiller contrôleur em 1777 —, Chéret era frequentemente requisitado para encomendas régias urgentes, embora nunca tenha recebido o título de orfèvre du roi. A sua produção, composta por serviços de mesa, bacias, jarros e peças de aparato, respondia à procura por objetos de representação social, frequentemente decorados com brasões e emblemas personalizados.
Infelizmente, essa actividade desenvolveu-se num período de transição estética e política, abruptamente interrompido pelos confiscos revolucionários de 1791.
CONSIDERAÇÕES FINAIS:
Estamos perante um exímio exemplo do trabalho do ourives Jean-Baptiste-François Chéret. Esta olha encapsula a transição sublime entre o rococó e o neoclassicismo na ourivesaria francesa do século XVIII, testemunhando não só a excelência técnica de uma dinastia parisiense, mas também o esplendor efémero do Antigo Regime. No contexto do service à la française, transcende a mera funcionalidade para se afirmar como emblema de prestígio social e inovação estética, integrando-se harmoniosamente na tradição de encomendas régias que ligavam Paris às cortes europeias, como as de Portugal e Rússia e neste caso aos nobres ingleses e mais tarde aos Rei da Grécia.
O seu valor reside na rara síntese de opulência formal e depuração erudita, tornando-a um testemunho material privilegiado de uma era de refinamento irreversivelmente alterada pela Revolução Francesa.
Leilão Terminado