65
Paisagem com animais, árvore e barcos ao fundo
Eugène Verboeckhoven (1798/99-1881)
Estimativa
3.000 - 5.000
Sessão 1
26 Outubro 2026
Descrição
Óleo sobre madeira
Assinado e datado de 1866
Verso com autenticação da obra pelo autor "Je soussigné déclare que le tableau ci contre est original / Eugène Verboeckhoven / Schaerbeek lez Bruxelles 1866"
38,5x56 cm
Categoria
Pintura
Informação Adicional
Proveniência:
Sotheby's, Nova Iorque, 2005
EUGÈNE VERBOECKHOVEN - Warneton, 1798 – Schaerbeek, 1881
Pintor, desenhador, gravador, litógrafo e escultor, Eugène Verboeckhoven alcançou renome internacional, sobretudo como um dos mais destacados pintores de animais do século XIX.
Ovelhas, bovinos, cabras, cavalos e burros ocupam um lugar de destaque na sua obra, a par de cães, veados, coelhos, lebres e aves de capoeira, bem como de animais mais exóticos e selvagens. O seu desejo de rigor era tal que, segundo se conta, não hesitava em entrar nos recintos dos animais para os observar de perto.
Estes animais surgem em luminosas paisagens bucólicas, em envolventes cenas de caça no inverno, em pátios de quinta e, ocasionalmente, em cenários costeiros. Quer trabalhasse em formatos mais intimistas, quer em telas de maiores dimensões e composições mais ambiciosas, Verboeckhoven mantinha uma extraordinária atenção ao detalhe. As suas pinturas de pequeno formato, em particular, apresentam frequentemente o requinte e a precisão de verdadeiras miniaturas, enquanto as composições de maior escala revelam a mesma execução minuciosa.
Embora celebrado sobretudo pelas suas representações de animais, Verboeckhoven foi também um retratista de grande qualidade, tendo pintado, entre outros, o rei Leopoldo I da Bélgica.
Durante a sua vida, Verboeckhoven foi um dos artistas belgas mais célebres da sua geração e alcançou uma reputação verdadeiramente internacional. As suas pinturas integraram coleções não só na Bélgica, mas também nos Países Baixos, Alemanha, França, Itália, Portugal e Grã-Bretanha, bem como na Rússia, nos Estados Unidos e na América do Sul.
Atualmente, as suas obras encontram-se representadas em numerosas coleções públicas, incluindo museus em Bruxelas, Antuérpia, Gante, Kortrijk, Liège, Luxemburgo, Valenciennes, Haia, Berlim, Estocolmo, Munique e Frankfurt, bem como em importantes instituições internacionais em Paris, São Petersburgo e Amesterdão.
Um artista formado pela escultura
Eugène Verboeckhoven cresceu no seio de uma família de artistas. O pai, Barthélemy Verboeckhoven, era escultor e foi responsável pela sua primeira formação artística, ensinando-lhe não só desenho, mas também modelação e escultura.
Esta formação escultórica revelar-se-ia fundamental no desenvolvimento de Verboeckhoven enquanto pintor. O seu notável domínio do volume, da anatomia e da forma tridimensional faz-se sentir ao longo de toda a sua obra, particularmente na forte presença física que confere aos animais.
Ainda jovem, frequentou aulas na Academia de Gante e viria posteriormente a relacionar-se com algumas das principais instituições artísticas da Bélgica.
Desde cedo, Verboeckhoven tomou como referência os grandes mestres antigos, assimilando os seus conhecimentos técnicos e tradições compositivas, ao mesmo tempo que desenvolvia uma linguagem profundamente enraizada no Romantismo do século XIX. As suas pinturas conjugam uma observação minuciosa com uma visão idealizada do mundo natural.
De temperamento perfeccionista, tinha particular gosto pela introdução de pequenos detalhes, simultaneamente delicados e expressivos: uma salamandra junto a uma rocha, uma pega pousada num ramo, gotas de orvalho matinal sobre as folhas ou uma borboleta momentaneamente captada na paisagem. Estes elementos nunca são meramente decorativos; contribuem para a extraordinária sensação de vida que anima as suas composições.
Verboeckhoven era um observador de excecional rigor. Antes de executar a pintura final, realizava numerosos desenhos e estudos a partir do natural. Estas observações individuais podiam depois ser reunidas numa composição cuidadosamente construída, criando um conjunto idealizado em que a natureza surge mais harmoniosa, serena e perfeitamente ordenada do que na própria realidade.
A sua arte situa-se, assim, num território fascinante entre a observação e a idealização, o Realismo e o Romantismo.
A individualidade dos animais
Uma das características mais marcantes e cativantes da arte de Verboeckhoven é a sua capacidade para conferir individualidade aos animais que representa.
Um rebanho de ovelhas nunca surge como um simples grupo anónimo. Uma volta-se para o observador; outra rumina tranquilamente; um carneiro ergue-se com porte altivo, enquanto um cordeiro procura a proteção da mãe. Cada animal ocupa o seu próprio espaço e parece possuir um temperamento distinto.
É através destas subtis diferenças que Verboeckhoven confere aos seus animais uma dignidade e uma individualidade pouco comuns.
Foi precisamente este excecional domínio da pintura animalista que lhe valeu o célebre epíteto «Raphaël des moutons» — «o Rafael das ovelhas».
A comparação pretendia homenagear o requinte, a harmonia e o domínio técnico que trouxe a um género no qual se tornou um dos mais destacados artistas europeus.
Uma técnica notável
Do ponto de vista técnico, Verboeckhoven foi um pintor de excecional mestria.
A forma como representa a lã é particularmente característica. Vista de perto, a pelagem é frequentemente construída através de inúmeros pequenos toques de pincel e subtis variações de tom. Observados a alguma distância, estes apontamentos fundem-se, criando uma impressão extremamente convincente de suavidade, peso e volume.
Igualmente característicos são os céus luminosos que se estendem sobre muitas das suas paisagens pastorais. O interesse de Verboeckhoven pelas técnicas dos antigos mestres estendia-se, segundo a tradição, à própria preparação dos materiais: em vez de recorrer exclusivamente aos pigmentos modernos, diz-se que preparava o azul-ultramarino a partir de lápis-lazúli moído, procurando alcançar a intensidade de azul que desejava para os seus céus.
O extraordinário acabamento das suas pinturas não deve, contudo, fazer esquecer a importância do desenho na sua prática artística. Os numerosos estudos que realizou revelam um artista em permanente observação, análise e registo do mundo que o rodeava. Estes desenhos constituíam um verdadeiro repertório de poses, animais, paisagens e pormenores, que mais tarde podiam ser transformados e recombinados nas composições finais.
Uma carreira internacional
Verboeckhoven expôs no Salão de Gante em 1820 e, ao longo das décadas seguintes, participou regularmente em importantes exposições e Salões. Em 1827, estabeleceu-se em Bruxelas, cidade que viria a tornar-se o centro da sua vida profissional.
O seu sucesso foi acompanhado por numerosas distinções. Recebeu medalhas em exposições realizadas em cidades como Gante, Paris e Lille e foi nomeado Oficial da Ordem de Leopoldo. Em 1845, a rainha D. Maria II de Portugal agraciou-o com a Ordem de Cristo.
A sua reputação ultrapassou largamente as fronteiras da Bélgica. Durante uma viagem a Itália, o rei Luís I da Baviera encomendou-lhe uma obra e, posteriormente, Verboeckhoven foi distinguido com a Ordem de São Miguel da Baviera.
As viagens desempenharam um papel importante no seu desenvolvimento artístico. Percorreu França, Grã-Bretanha e Escócia — cujas costas escarpadas o atraíram particularmente —, bem como a Alemanha, a Suíça e a Itália. A Campagna Romana revelou-se especialmente inspiradora. Ao longo destas viagens, realizou desenhos e estudos que mais tarde serviriam de material para as suas pinturas.
Nesta fase, a sua reputação era já tal que outros artistas o convidavam frequentemente a acrescentar animais e, ocasionalmente, figuras às suas composições. Longe de ser invulgar no século XIX, este tipo de colaboração refletia uma prática artística em que pintores com diferentes especializações conjugavam as respetivas competências numa mesma obra.
Verboeckhoven colaborou com alguns dos mais importantes paisagistas do seu tempo, acrescentando cavalos, bovinos, ovelhas, cabras, cães e figuras a paisagens de artistas como Louis-Pierre Verwée, Jean-Baptiste De Jonghe, Barend Cornelis Koekkoek, Alexandre Calame e Johann Bernard Klombeck.
Colaborou igualmente com o irmão, o pintor de marinhas Louis-Charles Verboeckhoven, acrescentando figuras e animais às suas cuidadas composições costeiras e marítimas.
Enquanto professor, Verboeckhoven formou numerosos alunos e seguidores e exerceu uma influência considerável sobre a geração seguinte de pintores animalistas belgas, entre os quais Daniel-Robert Jones e Charles e Edmond Tschaggeny.
Verboeckhoven e a Revolução Belga
A carreira de Verboeckhoven coincidiu também com um período decisivo da história da Bélgica. Participou nos acontecimentos relacionados com a Revolução Belga de 1830 e, após a Revolução, o Governo Provisório confiou-lhe responsabilidades ligadas à administração dos museus de Bruxelas, onde colaborou em medidas destinadas à salvaguarda das obras de arte.
A sua posição no recém-criado Estado belga ultrapassava, assim, o sucesso alcançado enquanto pintor. Verboeckhoven passou a integrar o meio cultural que se afirmou na Bélgica após a independência e participou ativamente nas instituições artísticas da nova nação.
Em 1834, tornou-se maçon em Bruxelas. A partir de cerca de 1850, surgem em algumas das suas obras três pontos dispostos em triângulo — um sinal tradicionalmente associado à Maçonaria — acompanhando a assinatura.
Em dezembro de 1845, foi eleito membro da Academia Real de Ciências, Letras e Belas-Artes da Bélgica, confirmando a posição de destaque que ocupava na vida artística do país.
Um estilo singular e duradouro
Ao longo da sua extensa carreira, Verboeckhoven manteve-se notavelmente fiel aos seus princípios artísticos. Numa época em que a pintura europeia atravessava profundas transformações, a sua obra conservou a técnica minuciosa, o naturalismo idealizado e o cuidado extremo no acabamento que haviam consolidado a sua reputação.
Em vez de acompanhar as tendências cada vez mais radicais que viriam a conduzir ao Impressionismo, continuou a desenvolver uma síntese muito pessoal entre a técnica dos antigos mestres, a sensibilidade romântica e uma observação atenta da natureza.
Esta coerência não deve, contudo, ser confundida com repetição. Dentro de uma linguagem aparentemente tradicional, Verboeckhoven variou continuamente as poses, as expressões, as paisagens, os efeitos atmosféricos e as relações entre os animais. O seu extraordinário domínio técnico permitiu-lhe transformar temas pastorais familiares em composições cuidadosamente construídas, nas quais cada detalhe contribui para o equilíbrio do conjunto.
Os cães ocuparam um lugar particularmente importante na sua obra. Verboeckhoven parece ter partilhado esse interesse com o rei Leopoldo I, para quem pintou várias composições dedicadas a estes animais.
Existe uma ligação particularmente interessante entre A Newfoundlander Resting by its Kennel, pintada em 1844, e The Favourite Animals of King Leopold I, executada no ano seguinte e atualmente conservada na Coleção Real Belga. O cão da Terra Nova representado na primeira composição surge novamente na pintura régia, encomendada pelo próprio Leopoldo I.
A relação entre estas duas obras permite compreender melhor a prática artística de Verboeckhoven. A pintura de 1844 não é apenas um retrato de cão de grande qualidade: insere-se no contexto artístico que conduziu diretamente a uma das suas importantes encomendas régias.
Ao longo de uma carreira de mais de meio século, Eugène Verboeckhoven elevou a pintura animalista a um extraordinário nível de refinamento técnico. Reunindo a precisão do desenhador, a compreensão do volume própria do escultor e a sensibilidade do pintor romântico, criou um mundo natural idealizado em que os animais deixam de ser simples elementos secundários para assumirem o papel de verdadeiros protagonistas.
Foi esta combinação de observação, virtuosismo e individualidade que consolidou a sua reputação internacional em vida e que continua, ainda hoje, a tornar as suas melhores obras imediatamente reconhecíveis.
Viviane Berko
Não pode estar presente?
Faça uma Licitação Telefónica ou Ordem de Compra
Licitação Telefónica
Licitação por telefone, que o potencial comprador poderá requerer por escrito, indicando previamente quais os lotes que pretende licitar telefonicamente, bem como indicar o(s) número(s) de telefone para os quais pretende ser contactado com uma antecedência de pelo menos 3(três) horas relativamente ao inicio da sessão do leilão a que digam respeito. Uma ordem de licitação telefónica implica que o potencial comprador se obriga, no mínimo, a cobrir o valor de estimativa mínima indicado no catálogo. Não sendo possível, por qualquer motivo, estabelecer contacto telefónico com o potencial comprador, a VERITAS reserva-se o direito de licitar em seu nome pelo valor mínimo do catálogo o(s) lote(s) em questão.
Ordem de Compra
Licitação por escrito, sem prejuízo do previsto nos artigos anteriores pode a leiloeira licitar em nome e por conta dos potenciais compradores que expressamente o solicitem através de impresso próprio, devidamente preenchido nos termos das condições nele constantes, desde que o mesmo seja recebido, com pelo menos 3(três) horas de antecedência ao inicio da sessão do leilão a que digam respeito.
Lote adicionado à sua ordem de licitação.
Voltar à página de Lotes