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Os Quatro Continentes
Jan Van Kessel I (1626-1679)
Estimativa
200.000 - 300.000
Sessão 1
25 Março 2026
Valor de Martelo
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Quatro óleos sobre cobre
Todos assinados na zona inferior, ao centro, “I.V.KESSEL. fecit”
69x87 cm (cada)
Categoria
Pintura
Informação Adicional
Proveniência:
Coleção do Palácio Porto Covo, Lisboa
Leiloada em 1941 pela Leiria & Nascimento, Lisboa
Coleção particular
Nota sobre o Lote
Jan van Kessel foi um membro de terceira geração da dinastia de pintores Brueghel, de Antuérpia. Era o único filho de Hieronymus van Kessel (1578–1636 ou mais tarde) e de Paschasia Brueghel (1603–1626 ou mais tarde), filha de Jan Brueghel, o Velho. Teve formação com o seu tio materno, Jan Brueghel, o Novo (1601–1678). Van Kessel foi admitido na guilda de pintores de Antuérpia no ano administrativo de 1644–1645, especificamente como pintor de flores.
A sua produção é bastante diversa, tanto nos temas como na qualidade. Por um lado, foi um artista muito original e inventivo; por outro, apropriava-se livremente de motivos e composições de colegas e, por vezes, repetia-se. O seu melhor período situa-se entre cerca de 1650 e 1665, incluindo um excelente conjunto de pelo menos oito naturezas-mortas florais de 1652, pintadas para exportação para Espanha. Entre as suas obras mais originais conta-se um conjunto de quatro alegorias dos Quatro Continentes, datado de 1664 e actualmente na Alte Pinakothek, em Munique.(1) A quarta pintura desse conjunto, África, a avaliar pela data, terá sido concluída em 1666.
Esses conjuntos são compostos por quatro painéis centrais — aos quais as quatro obras aqui apresentadas se relacionam de perto —, cada um rodeado por dezasseis painéis mais pequenos com paisagens, animais e (por vezes imaginários) perfis urbanos ao longe. Uma segunda série, incompleta, de 1660, hoje no Museu do Prado, em Madrid, resume-se actualmente a 40 painéis pequenos.(2) Van Kessel realizou outros conjuntos compostos deste género, por exemplo com estudos de insectos.(3) Isso não significa, contudo, que o conjunto dos Quatro Continentes aqui apresentado tenha pertencido originalmente a uma compilação desse tipo. Estas pinturas são maiores do que os outros exemplos conhecidos, o que exigiria painéis envolventes com outras medidas. Não parece haver registo de tais painéis.
A série de continentes de Jan van Kessel deve ser entendida no contexto do grande interesse, à época, por um mundo em rápida expansão, alimentado pelo aumento das ligações e do comércio ultramarino, com a consequente entrada de produtos exóticos e relatos de terras distantes nas sociedades europeias mais abastadas. Representações compactas de todas estas novidades, realizadas por artistas habilidosos, eram muito apreciadas como peças de conversa nos gabinetes de coleccionador.
Dos quatro painéis aqui apresentados, todos excepto África apresentam inscrições com os nomes dos continentes representados e incluem figura(s) (alegórica(s)) que simbolizam a sua população. Van Kessel preencheu as cenas com animais e objectos associados ao respectivo continente — ainda que nem sempre com rigor. Embora, no tipo, estas composições se aproximem dos painéis centrais da série de Munique, diferem nos pormenores e na construção. Apesar de maiores, são, em geral, menos elaboradas do que as versões anteriores. Este conjunto será provavelmente o mais tardio, do seu género, produzido por Jan van Kessel, cuja qualidade declinou ao aproximar-se da década de 1670. É provável que vários detalhes tenham sido executados por pintores assistentes no seu ateliê. As figuras, em pelo menos três dos painéis, foram pintadas por Abraham Willemsen (ver abaixo).
Europa, tal como na versão de Munique, é representada por uma dama coroada, segurando uma grande cornucópia cheia de frutos e flores, símbolo da prosperidade do continente. A sala está decorada com variações de algumas pinturas do próprio van Kessel. A pintura de aves aquáticas é uma adaptação do pequeno painel com a inscrição “Stockholm” na série de Munique, enquanto a ave de rapina em voo na outra composição aparece em pelo menos dois dos seus painéis pequenos.(4) Tanto a pintura de flores — evocando a série de 1652 referida acima — como o estudo de insectos no canto inferior direito surgem representados em dimensões consideravelmente maiores do que seria habitual nesse tipo de obras.
O escudo, o estandarte e os tambores, bem como o capacete à esquerda, aludem ao poder militar da Europa. O caderno de esboços, o apoio de pintor (mahlstick), a paleta e os pincéis sublinham a importância da arte; a bolsa indica riqueza monetária; e as cartas e os dados salientam o papel da boa sorte. Apesar da Reforma, a Europa é claramente apresentada como continente católico — o próprio van Kessel era católico. Sobre a mesa à esquerda vêem-se a tiara papal e o barrete vermelho de cardeal, e o livro sob o capacete é, muito provavelmente, uma Bíblia. Tal como na versão de Munique, um documento selado sobre a mesa menciona o Papa Alexandre VII. Um retrato deste papa está apoiado no chão, contra a parede do fundo.(5) O Papa Alexandre VII morreu em 1667 e foi sucedido por Clemente IX, que, em 1670, foi sucedido por Clemente X. Espalhadas pelo chão encontram-se muitas conchas marinhas. Eram raridades exóticas caras, importadas de costas longínquas, mas também — na página direita do livro aberto no canto inferior esquerdo, com a inscrição “EVROPA” — lê-se: “Pelegrins Sont qui dans ces Villes pour leur bourdon [= bordão de peregrino] chersent coquilles”. Isto alude aos peregrinos que viajavam para Santiago de Compostela e iam recolhendo, pelo caminho, as suas insígnias de peregrino em forma de concha.
África mostra uma mulher negra segurando um escorpião, sentada sobre um leão. O leão prende uma serpente entre as patas dianteiras e mais dois escorpiões rastejam à frente do animal, talvez indicando, em conjunto, os perigos da natureza africana. À esquerda há um grande cesto com fardos de tabaco e, à frente, vêem-se dois putti (anjinhos) negros sentados sobre mais alguns fardos, um dos quais fuma um cachimbo. No chão, em primeiro plano, surge uma variedade de cachimbos, juntamente com um prato de porcelana chinesa com tabaco moído, além de algumas armas exóticas. Ao fundo, diante de uma fila de tendas, uma família negra parece passear um elefante. Aves exóticas voam por cima e, no canto dianteiro direito, vemos uma variação de uma das pinturas de Jan van Kessel de aves exóticas numa árvore, inspirada em grande medida nas representações do elemento Ar do seu avô, Jan Brueghel, o Velho. Sobre uma mesa encostada à parede do fundo encontram-se alguns recipientes valiosos, um ceptro e fragmentos de coral branco e vermelho.
Ásia apresenta uma mulher ricamente trajada segurando um turíbulo (incensário), coroada com uma grinalda de flores. Está diante de um camelo ajoelhado, à esquerda de uma mesa onde se encontram um turbante coroado e um ceptro, alguns recipientes e uma aljava. Atrás dela, num nicho, há um grande Buda, com armas exóticas apoiadas. Em primeiro plano, ao centro, dois querubins viram uma cornucópia junto de um conjunto de objectos exóticos e bens preciosos, incluindo bichos-da-seda. Um livro aberto tem, no canto inferior esquerdo, a inscrição “ASIA” e, no canto superior direito, “ALKORAN”, e mais abaixo “MAHOMETE”, numa referência ao Islão.(6) Na extrema esquerda encontra-se o que provavelmente é um grande escudo, com uma espada por detrás. Ao fundo, à esquerda, há um templo com figuras a adorar ídolos. Mais ao longe, no extremo esquerdo, vê-se o que poderá ser uma torre ou um obelisco.
América é representada por nativos americanos de pele morena: uma mulher de peito descoberto com arco e flechas e cocar de penas, uma figura semelhante ao centro, em segundo plano, e uma criança com saia de penas, segurando uma arara e também com arco e aljava. Em primeiro plano, um macaco martela um conjunto de gongos pousados no chão. Entre os animais representados incluem-se um tatu, uma tartaruga, um tamanduá, um canguru, um crocodilo e um rinoceronte, para o qual van Kessel recorreu à famosa gravura de Dürer.(7) No telhado de um abrigo à esquerda pousa outra arara, e várias aves voam, entre elas uma ave-do-paraíso. Vêem-se ainda diversos recipientes exóticos, de um dos quais sobressai um fragmento de coral vermelho, enquanto uma espada se apoia nele. A cena decorre entre cabanas dentro de um espaço cercado. Na parede da cabana à direita rastejam várias criaturas, entre elas outro escorpião.
Enquanto as figuras da série de Munique foram executadas pelo reputado Erasmus Quellinus II (1607–1678), para esta série Jan van Kessel colaborou com o pintor de figuras menos conhecido Abraham Willemsen (1614–1672), artista com quem já trabalhara com alguma frequência desde a década de 1650. Esta colaboração permite datar as pinturas de antes de Dezembro de 1672, quando Willemsen morreu. Contudo, as figuras em Ásia não são inteiramente características do estilo de Willemsen, pelo que poderão ter sido concluídas por um colaborador após a morte do artista. Em todo o caso, isso confirmaria uma data de execução destas quatro pinturas posterior a 1667 — tendo em conta o retrato do papa — e anterior a 1672, ou ligeiramente posterior.
Dr. Fred G. Meijer
Historiador de Arte
Leilão Terminado