Leilão 155 Antiguidades e Obras de Arte, Pratas e Jóias

306

O Triunfo de Ceres


Estimativa

15.000 - 20.000


Sessão 2

16 Dezembro 2025



Descrição

Manufatura de Bruxelas, oficina de Urbanus e Daniel Leyniers
Segundo cartões de Jan van Orley (1665–1735) e Augustin Coppens (1668–1740)
Tapeçaria em lã e seda
Representando a deusa da agricultura e da fertilidade, coroada com espigas de trigo e segurando um cetro, sentada de forma majestosa num carro triunfal parcialmente visível e puxado por dragões alados. Ceres surge acompanhada por um séquito de ninfas, putti e uma figura masculina de porte militar
O lado esquerdo da composição apresenta um grupo de camponeses em atitude de veneração
A paisagem de fundo é preenchida por árvores, arquitetura e cenas rurais alusivas à colheita
Cercadura composta por enrolamentos contínuos de folhas de acanto, rematada nos cantos e a meio por cartelas com concheados
Assinada “D. L.” no canto inferior direito
Finais da primeira metade do séc. XVIII
(pequenos defeitos e restauros)

349x410 cm


Informação Adicional

O Triunfo de Ceres na Tapeçaria de Bruxelas do Século XVIII
A tapeçaria agora em leilão integra a série mitológica conhecida como O Triunfo dos Deuses e das Deusas, concebida por Jan van Orley e Augustin Coppens e produzida na oficina de Urbanus e Daniel Leyniers (inicialmente em parceria com Hendrik Reydams). Esta série constitui uma das formulações mais ambiciosas do repertório mitológico desenvolvido em Bruxelas no período, conhecendo-se mais duas séries cujo tema central era a exaltação do triunfo de deuses clássicos – a primeira, produzida por volta de 1705, desenhada por Victor Janssens e Augustin Coppens e executada nas oficinas de Judocus de Vos e da família Auwercx; segue-se a criação de Reydams–Leyniers em 1716, na qual se enquadra a tapeçaria agora em leilão, e uma terceira série, também com base em desenhos de Jan van Orley e Augustin Coppens, associada à oficina de Van der Borcht, que a terá começado a produzir por volta de 1725 (Campbell, 2007).
A primeira encomenda documentada da série de Reydams–Leyniers foi realizada em 1716 pelo Kasselrijhuis van Oudburg. O conjunto composto por cinco tapeçarias (dedicadas a Apolo, Minerva, Diana, Vénus e Marte) foi instalado no edifício da instituição em 1717, atualmente é preservado no Museum voor Schone Kunsten de Ghent e constitui o grupo conhecido mais antigo e completo de tapeçarias da série O Triunfo dos Deuses e das Deusas (MSK Gent, s.d.). A oficina continuou a produzir edições desta série ao longo de várias décadas, combinando divindades conforme as encomendas, sendo conhecidas pelo menos catorze tecelagens entre 1717 e 1747 (Campbell, 2007).
Um testemunho essencial para determinar a amplitude original do ciclo é um conjunto de cartas autobiográficas de Daniel Leyniers, datado de 1749, estudado por Koenraad Brosens. Nestes documentos, Leyniers enumera quinze composições mitológicas, cada uma dedicada a um deus ou deusa: Vénus, Minerva, Marte, Mercúrio, Vulcano, Éolo, Júpiter, Baco, Diana, Ceres, Flora, Apolo, Hércules, Plutão e O Banho de Diana (Brosens, 2004). Esta listagem confirma a existência de uma composição dedicada à deusa Ceres inserida num programa coerente, destinado a clientes de alto nível e claramente vocacionado para transmitir ideias de abundância, fertilidade, governação virtuosa e poder divino. O facto de estes temas continuarem activos no catálogo da oficina até meados do século XVIII demonstra a vitalidade comercial dos cartões de Van Orley e Coppens e o prestígio duradouro desta série.
Jan van Orley e Augustin Coppens tiveram um impacto estruturante na produção de tapeçarias em Bruxelas ao longo do século XVIII. Van Orley afirmava-se já no início do século como um dos principais autores de cartões, criando séries de grande envergadura e estabelecendo um vocabulário figurativo que rapidamente se tornou dominante. Coppens, inicialmente conhecido pelas vistas de Bruxelas após o bombardeamento de 1695, tornou-se um dos mais requisitados desenhadores de paisagens para tapeçaria, trabalhando regularmente desde 1689 e colaborando com quase todas as oficinas importantes. Segundo Campbell (2007), a sua colaboração conjunta foi particularmente prolífica, abrangendo pelo menos quinze séries para diferentes oficinas, incluindo De Vos, Auwercx, Le Clerc, Van den Hecke, Reydams–Leyniers e Van der Borcht, sendo que, entre cerca de 1713 e 1725, Van Orley e Coppens foram os principais artistas responsáveis pelos cartões fornecidos à oficina de Reydams–Leyniers (Campbell, 2007).
A parceria entre ambos assentava numa divisão de funções muito clara: Van Orley concebia a cena e a estrutura narrativa, desenhando as figuras, enquanto Coppens acrescentava posteriormente o cenário e a paisagem, criando a profundidade, a escala e a atmosfera que caracterizam estas composições. O próprio Coppens explica, em correspondência citada por Campbell (2007), que executava as paisagens “depois de os colegas completarem os cartões com figuras e animais”, descrevendo um método de trabalho que se repetiu em numerosas séries, das Metamorfoses de Ovídio às Caçadas com Lodewijk van Schoor, à História de Júpiter com Johannes de Reyff, às séries Teniers e às grandes sequências históricas e mitológicas criadas para De Vos, Auwercx, Reydams–Leyniers, Van den Hecke e Van der Borcht (Campbell, 2007; Brosens, 2017). Embora fossem artistas independentes e não uma oficina conjunta, muitas encomendas surgem registadas em nome de Van Orley, sendo completadas “com” ou “depois de” Coppens; em casos como a série Teniers para De Vos, a documentação confirma inclusivamente que “Coppens executou as paisagens em todos os oito cartões” (Brosens & Slegten, 2017). Dessa articulação resultavam séries inteiramente estruturadas, prontas a ser fornecidas às manufaturas e facilmente reutilizadas e adaptadas ao longo das décadas seguintes. A difusão prolongada destas composições confirma a força duradoura do modelo criado por ambos. Documentação de meados do século XVIII demonstra que os Triunfos dos Deuses e das Deusas continuavam a ocupar um lugar central no catálogo da oficina Leyniers muito depois da morte de Van Orley e Coppens. Através dos registos de Daniel Leyniers sabe-se que entre 1751 e 1752, Daniel IV Leyniers vendeu ao embaixador imperial Botta Adorno sete tapeçarias desta mesma série para oferta à imperatriz Maria Teresa da Áustria, integrando-as num programa diplomático de forte carga representativa (Brosens, s.d.). A tapeçaria agora em leilão, dedicada à deusa Ceres, insere-se plenamente neste universo criativo e comercial, refletindo a ambição artística e a longevidade de um conjunto que marcou a produção flamenga do século XVIII.
Exemplares conhecidos da série O Triunfo dos Deuses e das Deusas em Portugal incluem o Triunfo de Baco na Casa-Museu Medeiros e Almeida e o Triunfo de Minerva do Palácio Nacional da Ajuda. No que respeita à temática de Ceres, conhece-se uma tapeçaria atribuída à oficina de Albert Auwercx cuja cercadura apresenta notável afinidade com a do presente lote (Sotheby’s, Nova Iorque, 30 de Março de 2011). Essa coincidência é particularmente significativa, uma vez que as oficinas de Bruxelas procuravam distinguir-se através de cercaduras exclusivas (Campbell, 2007). A semelhança entre ambas sugere que, durante o declínio da oficina Auwercx nas décadas de 1720–1740, a próspera oficina Leyniers terá adquirido cartões de cercaduras originalmente pertencentes àquela família, prática documentada noutras transferências de património artístico da época. A presença desta cercadura de origem Auwercx numa tapeçaria assinada “D.L.” indica, assim, uma produção já posterior às primeiras edições da série e compatível com uma datação na década de 1730, período em que a oficina Leyniers consolidava a sua posição dominante no mercado.

Bibliografia:
Brosens, Koenraad. "Botta Adorno, Empress Maria Theresa and Brussels Tapestry. Part II." Textile History;
Brosens, Koenraad, e Astrid Slegten. "Creativity and disruption in Brussels tapestry, 1698–1706: New data on Jan van Orley and Judocus de Vos." The Burlington Magazine 159;
Campbell, Thomas P., et al. Tapestry in the Baroque: Threads of Splendor. New York: Metropolitan Museum of Art; New Haven: Yale University Press, 2007.
Museum voor Schone Kunsten Gent. "Verheerlijking van Diana, 1717." Ficha de inventário, Inv. 1994-F-4.



Leilão Terminado