Leilão 140 Antiguidades e Obras de Arte, Pratas e Jóias

635

Importante Arca sobre suporte em forma de dois elefantes


Estimativa

35.000 - 50.000


Sessão 3

28 Maio 2024


Descrição

Com quatro gavetas simulando seis e um compartimento no topo com tampa basculante
Em teca, ébano, sissó, marfim, osso e ferro
Com ferragens de cobre dourado
Índia, provavelmente Taná, ca. 1560-1620

78x83x44 cm


Categoria

Mobiliário


NOTA SOBRE O LOTE

Esta rara e importante arca sobre suporte em forma de dois elefantes pertence a um grupo muito restrito de peças desta tipologia e a uma produção também ela rara e com características formais e decorativas muito específicas, hoje melhor conhecida. De estrutura em teca (Tectona grandis), a arca é faixeada a sissó (Dalbergia latifolia) e decorada com embutidos de marfim de elefante, osso animal tingido de verde, ébano (Dyospiros ebenum) e madeiras exóticas, todos fixos por pequenos pinos de latão, resultando numa sumptuosa obra de marchetaria. De forma paralelepipédica, possui tampo de levantar que, quando aberto, revela largo compartimento interior. A arca apresenta quatro gavetas simulando seis, dispostas em três fiadas mantendo a simetria; as duas de cima, cegas e correspondendo ao interior da arca. Esta nossa arca, como que um caixote de contador, é suportada sobre dois elefantes finamente entalhados em madeira ebanizada, provavelmente de fabrico mais tardio. À semelhança de outros caixotes com esta decoração marchetada de cores (veja-se Crespo 2021, pp. 99-100, e p. 151, cat. 36) que provavelmente perderam a sua trempe original, esta arca pode ter tido uma trempe também marchetada, com gavetas, ou incluindo arcarias vazadas como de bufete, ou mesmo um suporte menos decorado e, assim, menos propenso a sobreviver. O intenso desgaste do fundo exterior da nossa arca indica essa forte possibilidade. As ferragens de cobre dourado, algumas de fabrico posterior, incluem as duas gualdras nas ilhargas para maior facilidade de transporte, seis espelhos de fechadura, recortados e vazados, e a abundante pregaria de cabeça hemisférica que decora todas as arestas da arca e os entrepanos das gavetas.
A copiosa decoração marchetada inclui vasos de flores simetricamente dispostas nas frentes das gavetas. Mais complexa e em tapete, a decoração das ilhargas apresenta idênticos vasos de flores no campo central, estreita cercadura de quadrifólios e elementos em ‘til’, e larga cercadura de enrolamentos vegetalistas com terminais em cabeça de dragão, grandes rosetas nos pontos médios e águias bicéfalas coroadas nos cantos. A decoração do tampo, também em tapete, segue idêntica decoração de vasos de flores no campo central, ladeando largo medalhão circular cujo centro é reminiscente de flores-de-lótus estilizadas, sendo a cercadura de enrolamentos vegetalistas com terminais em cabeça de dragão. O mesmo tipo de estreitas cercaduras decora o tampo, assim como é idêntico a larga cercadura de enrolamentos com cabeças de dragão, rosetas e águias bicéfalas. O tardoz da arca, também faixeado a sissó, apresenta simples filetes de marfim e uma estreita cercadura alternando quadrifólios e elementos em ‘til’. A documentação portuguesa do século XVI refere a aldeia de Taná - hoje parte da cidade de Mumbai (Bombaim) -, na qual floresceu uma grande comunidade de artesãos muçulmanos, como origem de preciosos móveis marchetados, sendo possível identificar o centro de produção desta nossa arca com Taná, então parte da Província do Norte do Estado Português da Índia. Esta arca pertence então a um grupo de raras peças do mobiliário mais recuado fabricado para o mercado português e identificado apenas recentemente quanto à sua origem geográfica, fontes decorativas de inspiração (iranianas, otomanas e europeias) e contexto histórico de produção (veja-se Crespo 2016, pp. 136-171, cat. 15; Crespo, 2021, pp. 88-104; e Crespo 2024).
Conhecemos apenas outras duas arcas desta produção e características. Uma pertence ao Museo Colonial e Histórico de Luján na Argentina e foi publicada em 1944 por A. Taullard no seu clássico livro, El Mueble Colonial Sudamericano, sob o n.º 204. Mais famosa é a arca outrora na colecção do 2.º Conde da Foz (depois 1.º Marquês da Foz), Tristão Guedes Correia de Queirós (1849-1917), que encontramos registada numa das fotografias do conhecido Álbum do Palácio Foz de 1891. Atribuídas a M. Caetano de Portugal, e hoje à guarda da Biblioteca de Arte da Fundação Calouste Gulbenkian, das vinte e nove fotografias uma regista o interior da ‘Sala d’espera’ (inv. CFT172.011). À direita vemos uma grande arca marchetada elevada sobre dois elefantes, ladeada por um par de contadores ditos ‘de capela’ de produção goesa. Anos mais tarde, a 3 de Maio de 1901, no catálogo da venda pública de todo o recheio do Palácio Foz, a arca surge listada na Sala G sob o n.º 329, e assim descrita: ‘Uma arca em ebano marchetada de marfim de variadas côres, tendo por pés dois elephantes em ebano com chairéis embutidos tambem de marfim. O interior d’este precioso movel é também marchetado, em marfim, mais simplesmente. Trabalho da India do seculo XVI.’ (Catálogo 1901, p. 27). De grandes dimensões (106,0 x 108,0 x 62,0 cm), esta arca foi leiloada pela Sotheby’s (Londres, 6 de Outubro de 2010, lote 223). Embora sem ter a sua ilustre proveniência devidamente notada pela casa leiloeira, vendeu-se por 241.250 libras. De estrutura em teca, é também integralmente faixeada a sissó e decorada com embutidos coloridos, destacando-se idênticas ferragens de latão vazadas, sendo aqui a pregaria das arestas e entrepanos substituída por botões (calotes achatadas) de marfim, provavelmente posteriores e de gosto oitocentista. Os elefantes, ao contrário da descrição oitocentista, não são em ébano mas entalhados em teca ebanizada. A decoração marchetada da arca dos Marqueses da Foz é em tudo semelhante à da nossa arca, pontuando águias bicéfalas coroadas, vasos de flores e enrolamentos vegetalistas com cabeças de dragão. No entanto, a sua decoração sugere menos um caixote de contador, ao contrário da nossa arca.
De menores dimensões (24,8 x 49,9 x 30 cm), refira-se uma arca desta produção, com duas gavetas no registo inferior, assente sobre pés esféricos de cobre dourado, em colecção particular e outrora pertença dos senhores de Óis do Bairro, no Paço de Óis ou Casa de Montalvão, Anadia (Dias 2013, pp. 376, 378-380). Esta produção de mobiliário de marchetaria de cor parece ter sido bastante apreciada pelas elites portuguesas no século XIX, a julgar por exemplares que pertenceram à casa real (Crespo 2021, pp. 90-92, e fig. 50) e a coleccionadores como Júlio Eugénio Ferreira Ozório (Crespo 2021, pp. 93-94 e p. 152, cat. 45) ou Vasco Ortigão Sampaio (Crespo 2024, pp. 17-22). Este gosto resultou também em peças de mobiliário que integram elementos originais combinando-os com outros de fabrico mais recente, tornando difícil em certos casos, uma destrinça completa. Tal é o caso de um contador sobre trempe do Museu da Sociedade de Geografia de Lisboa, oferecido em 1969 por Ruben Henry Harvey, ou do chamado ‘contador Leyland’, vendido em leilão pela Christie’s (Londres, 6 de Julho de 2017, lote 18) e fotografado em 1892 na colecção de Frederick Richards Leyland. Ambos conjugam elementos originais, quinhentistas e seiscentistas, com outros de fabrico oitocentista. Outras peças, mais fantasistas, serão na íntegra criações oito e mesmo novecentistas.
A nossa arca, que terá pertencido a uma casa importante do norte de Portugal, apresenta todas as características técnicas condizentes com uma datação entre a segunda metade do século XVI e as primeiras décadas de Seiscentos, quer quanto aos modos de preparação das pranchas de madeira, como a típica ensamblagem em cauda de andorinha reforçada a cavilhas de bambu, ou mesmo a complexa técnica de embutidos (Crespo 2024, pp. 13-14). De sublinhar é a extraordinária dimensão das pranchas inteiriças de teca que constitui o tampo da arca, ou a dimensão e qualidade do faixeado de sissó do tardoz, e o requinte das cavilhas também de sissó que o fixam à teca da estrutura. Este faixeado, ao contrário do das restantes faces, mantem a coloração original deste pau-santo indiano da mesma família do jacarandá brasileiro (Dalbergia nigra). Á qualidade e riqueza da decoração de embutidos acresce o exotismo dos elefantes, resultando numa peça de mobiliário invulgar e de grande efeito e aparato.


Bibliografia / Literature:
Catálogo da Exposição dos Objectos de Arte e Mobiliário Antigo, Palácio Foz, Lisboa, 1901; Hugo Miguel Crespo, Choices, Lisboa, AR-PAB, 2016; Hugo Miguel Crespo, A Índia em Portugal. Um Tempo de Confluências Artísticas (cat.), Porto, Bluebook, 2021; Hugo Miguel Crespo, Da Província do Norte. Marchetados e Acharoados da Índia Portuguesa, Lisboa, São Roque Antiguidades, 2024; Pedro Dias, Mobiliário Indo-Português, Moreira de Cónegos, Imaginalis, 2013; A. Taullard, El Mueble Colonial Sudamericano, Buenos Aires, Ediciones Peuser, 1944

Hugo Miguel Crespo
Centro de História, Universidade de Lisboa



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