510
Cristo crucificado
Estimativa
12.000 - 15.000
Sessão 3
27 Outubro 2026
Valor de Martelo
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Em coral vermelho mediterrâneo, cobre e bornze dourados e esmalte
Figura de Cristo em coral aplicada sobre cruz em cobre dourado e cinzelado
Terminais em bronze dourado recortado e vazado
Decorado com rosetas em coral e cobre esmaltado e friso festonado em coral
Titulus e caveira em coral
Trapani, Sicília, primeira metade do séc. XVII
(braço esquerdo e pernas fraturadas, pequenos acidentes e faltas)
30x17 cm
Categoria
Objectos
Informação Adicional
A produção de objetos em coral de Trapani insere-se numa longa tradição cuja excelência foi reconhecida em toda a Europa. Estas obras eram apreciadas por nobres, altos prelados, soberanos e papas, integrando com frequência não só importantes ofertas diplomáticas, mas também Kunstkammer principescas. A sua raridade contribuiu para o elevado valor que lhes era atribuído, num contexto de crescente interesse pelas Ciências Naturais que se intensificou na Europa a partir do século XVI.
As suas origens mitológicas remontam à Antiguidade Clássica e foram narradas nas Metamorfoses de Ovídio: quando Perseu decapitou Medusa, o sangue que jorrou da sua cabeça transformou-se em coral ao tocar o solo. Esta associação conferiu-lhe, desde cedo, um carácter mágico, protetor e medicinal. Posteriormente reinterpretado dentro do contexto cristão, o coral passou a ser associado ao sangue de Cristo, adquirindo também um valor salvífico[1].
O coral foi um material muito apreciado para a criação de obras de arte, estando documentada a produção de objetos neste material em diversos centros europeus. Entre estes, Trapani destacou-se como o mais importante centro de produção, tendo a sua atividade sido apoiada pela corte do Vice-Rei da Sicília entre os séculos XVI e XVIII.
A sua produção beneficiou da proximidade geográfica de bancos de coral e de uma ativa rede comercial que favoreceu a expansão desta atividade. Numa fase inicial, a produção ter-se-á concentrado sobretudo na elaboração de contas de coral destinadas aos característicos paternosters[2]. Esta arte desenvolveu-se num contexto de constante intercâmbio e colaboração artística na qual fundidores de cobre, ourives e prateiros partilhavam técnicas e conhecimentos. Esta colaboração entre diferentes ofícios contribuiu para a criação de objetos de grande complexidade técnica e riqueza ornamental[3].
Um momento decisivo na evolução desta produção ocorreu no século XVI com a introdução da técnica do buril por Antonio Ciminello, um célebre mestre de coral. O recurso a esta ferramenta permitiu alcançar um elevado grau de precisão, favorecendo a execução de pequenas esculturas e miniaturas de particular refinamento.
No final do século XVI difundiu-se a técnica de retroincastro[4], que se tornou central nesta produção e característica de obras realizadas entre o final do século XVI e a primeira metade do século XVII, surgindo frequentemente associada à aplicação de esmaltes brancos ou policromos, como se observa neste pequeno núcleo de peças agora apresentadas[5]. Esta técnica consiste na inserção de pequenos fragmentos de coral polido através do verso de placas de cobre dourado previamente perfuradas, fixados com breu e cera e posteriormente selados com tecido. O verso era coberto com uma segunda placa de cobre dourado[6]. O aumento da procura por estas obras ao longo do século XVII levou os artesãos a alterar ligeiramente a sua técnica, sendo os elementos de coral fixos através de fios metálicos. A expansão desta produção é igualmente testemunhada pelas vinte e cinco oficinas ativas em Trapani no início do século XVII.
A produção de objetos devocionais em coral de Trapani desenvolveu-se num contexto profundamente marcado pela espiritualidade da Contrarreforma. Em resposta à Reforma Protestante, a Igreja Católica reforçou, através do Concílio de Trento (1545–1563), a importância da doutrina, da devoção e do culto das imagens como instrumentos de afirmação e transmissão da fé. No período pós-tridentino, esta renovação espiritual refletiu-se particularmente na intensificação do culto da Virgem Maria, promovido e apoiado pelos papas e pela Igreja Católica[7].
A placa devocional, dita capezzale[8], apresentada agora em leilão insere-se neste contexto cuja composição articula material, iconografia e função devocional. A representação da Virgem traduz a importância da devoção mariana no período pós-tridentino, enquanto o coral, associado, no contexto cristão, ao sangue de Cristo, acrescenta à obra uma dimensão apotropaica e salvífica. Deste modo, a utilização do coral não responde apenas a uma escolha estética ou ornamental, mas participa ativamente na construção do significado devocional da peça.
Esta dimensão assume uma expressão ainda mais evidente nos crucifixos apresentados agora em leilão. A representação de Cristo agonizante, com o corpo submetido ao sofrimento e uma expressão de intensa dor, respondia à necessidade pós-tridentina de tornar os episódios da Paixão visualmente presentes e emocionalmente acessíveis ao fiel. Num destes objetos, o coral integrado na representação de Cristo sofredor estabelece uma associação visual entre a matéria vermelha e o sangue derramado durante a Paixão. O coral adquire, deste modo, um significado particularmente intenso, evocando simultaneamente o sofrimento de Cristo, o seu sacrifício e o seu poder redentor[9]. Nestes exemplares, a combinação entre a expressividade da figura e a intensidade cromática do coral transforma a imagem num objeto destinado não apenas à contemplação, mas à participação emocional e espiritual do observador.
Deste modo, o capezzale e os dois crucifixos, embora distintos na sua iconografia e tipologia, partilham a mesma matriz devocional. Através da associação entre coral, sangue de Cristo, sofrimento, proteção e salvação, estas obras testemunham a importância que o coral assumiu na arte religiosa de Trapani durante o século XVII.
Por fim, importa assinalar a importante proveniência do crucifixo de maiores dimensões, que integrou a coleção March, uma das mais relevantes coleções espanholas do século XX. Reunida ao longo de várias gerações da família March, a coleção foi particularmente ampliada por Bartolomé March Servera (1917–1998), sob a orientação de Pierre Delbée (1900-1974), cujo gosto se inspirava nas Wunderkammern dos séculos XVI e XVII[10]. No ano de 2009, uma parte significativa da coleção foi leiloada pela Christie’s em Londres. A isto seguiu-se uma segunda venda realizada em Paris, a 16 de junho de 2015, na qual foi incluído o crucifixo que agora trazemos a leilão.
Marta Silva Pereira
[1] Cf. DI NATALE, Da Trapani a Napoli, p. 3; ASCIONE, Splendori di Sicilia, p. 104.
[2] Cf. DI NATALE, I Grandi Capolavori del Corallo, pp. 39–42; DI NATALE, Rosso Corallo, p. 17; MARE, Mirabilia Coralii, p. 54.
[3] Cf. DI NATALE, Rosso Corallo, p. 21.
[4] Definição estabelecida por Corrado Maltese e Maria Concetta Di Natale no contexto da exposição The Art of Coral in Sicily, realizada no Museu Pepoli, Trapani, 1986.
[5] Cf. DI NATALE, Da Trapani a Napoli, p. 4.
[6] Cf. INTORRE, Coralli trapanesi nella collezione March, pp. 31-32.
[7] Cf. FASTIGGI, The Oxford Handbook of Mary, pp. 454-467.
[8] Na Sicília, o termo capezzale refere-se a uma placa devocional frequentemente pendurada junto à cabeceira da cama, tendo uma função apotropaica (Cf. CAMPIONE, Grandi Capolavori del Corallo, p. 81).
[9] Cf. DI NATALE, Grandi Capolavori del Corallo, p. 10; MARINO, Grandi Capolavori del Corallo, pp. 114-115.
[10] Cf. INTORRE, Coralli trapanesi nella collezione March, p. 31.
Leilão Terminado