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"Bodegon", c. 1983-1984

Miquel Barceló (n. 1947)


Estimativa

100.000 - 150.000


Sessão

7 Novembro 2019


Descrição

Técnica mista sobre tela

90x112 cm


Categoria

Arte Moderna e Contemporânea


Informação Adicional

Com certificado de autenticidade da Galeria Bruno Bischofberger AG, Suíça


Bodegón faz parte de uma série de pinturas de médio formato representando cozinhas realizadas por Miquel Barceló entre 1983 e 1984. Esta pintura foi adquirida no ARCO de 1985 por um colecionador português e desde então permaneceu sempre em coleções privadas. Algumas destas ‘cozinhas’ foram pintadas em Portugal no verão de 1984, durante os quatro meses que Barceló passou em Vila Nova de Milfontes, no sul do país, com o seu amigo e designer Javier Mariscal.
A estadia em Portugal de ambos os artistas foi tema de um documentário de Paloma Chamorro, no seu programa de televisão La Edad de Oro. Aqui é mostrado o artista a produzir, na praia de Vila Nova de Milfontes, grandes marinhas com barcos e naufrágios, incorporando algas e areia como materiais pictóricos. É neste período que Barceló também pinta algumas naturezas mortas mais pequenas da mesma série da que aqui mostramos. Pouco tempo depois, estas pequenas ‘cozinhas’ deram lugar a obras de maior formato, como Fum de Cuina [Fumo de Cozinha] (1984) ou La Gran Cena Española [O Grande Jantar Espanhol] (1985). Sendo esta última, a primeira obra de Miquel Barceló a ser adquirida pelo Museu Reina Sofía, em Madrid.
Todas as pinturas da série cozinha foram pintadas no momento em que o artista se consagrava internacionalmente. Jean-Louis Froment organizou a primeira mostra institucional de Barceló no CAPC Musée d´Art Contemporain, em Bordéus, inaugurada em Maio de 1985, sendo de seguida mostrada no Palácio de Velázquez, em Madrid, e mais tarde, em 1986, no Institute of Contemporary Art, em Boston. A exposição itinerante apresentou um vasto conjunto de pinturas realizadas por Barceló entre 1983 e 1985, anos em que o artista expõe igualmente em importantes galerias privadas em Nápoles, Paris, Madrid, Nagoia ou Colónia. Este é o período em que a sua obra se relaciona com o neo-expressionismo, sendo descrita como uma pintura nómada e selvagem.
Em 1984, Barceló já tinha pintado, dentro deste tema, pratos de sopa, para além de outras pinturas como La Mirada Nutritiva [O Olhar Nutritivo] (1984) apresentada na exposição de Bordéus, em que próprio artista se representa olhando uma superfície que pode ser tanto uma mesa como uma tela repleta de alimentos.
Numa entrevista no catálogo desta exposição, Barceló referiu que as naturezas mortas são para ele uma maneira de estabelecer uma relação direta com os aspectos físicos da pintura, como se fossem mesas para realizar experiências. O artista refere ainda que as naturezas mortas lhe permitem recriar uma estrutura alegórica, baseada na inexorável passagem do tempo, inspirada na pintura barroca italiana. As obras como a que aqui se apresenta, tendem para o monocromático em tons de cinza ou terra, o que é característico da série dedicada às cozinhas.
Ainda no catálogo da exposição em Bordéus, Barceló diz que estas obras representam as suas próprias experiências, tentando encontrar uma correspondência tanto interna como visual entre os materiais pictóricos, que incluem sobras de comida, e os temas representados. Mais do que a imagem e o material, Barceló procura coincidências entre opostos, como o sólido e o líquido, o mole e o duro, o opaco e o transparente. É aqui que surge o que será um tema recorrente na sua obra: a metamorfose da matéria, sempre em constante transformação.
No Bodegón, vemos um bife a ser cozinhado numa frigideira de onde sai fumo que ascende diagonalmente para a esquerda, e na direção oposta o cabo da frigideira cria uma diagonal para a direita, conferindo um grande dinamismo à pintura. Embora o fumo constitua uma imagem de transparência, o seu efeito é conseguido através de velaturas e de grossas camadas de matéria. O mesmo efeito é obtido no fogo do fogão por baixo da frigideira através de incisões na própria tinta. Da mesma maneira, o artista representa um galheteiro, um saleiro e o que parece ser um pequeno recipiente, todos convertidos em imagens transparentes, no canto inferior direito da pintura.
Trata-se de uma obra que reflete sobre a relação entre matéria, luz e imagem, e de como a pintura se sustenta nesta relação, indo muito além da sua primeira aparência irónica. A pintura, relacionada com a alimentação, também se torna numa metáfora de algo necessário à vida. Depois destas ‘cozinhas’, Barceló irá pintar uma série de restaurantes chineses, à qual pertencem obras como Le Chien Chinois [O Cão Chinês] ou Restaurant Chinois avec Grenouilles [Restaurante Chinês com Rãs], ambas de 1985.

Enrique Juncosa
Curador da exposição retrospectiva Miquel Barceló no Museu Reina Sofía, em Madrid



Leilão Terminado