Leilão 104 Antiguidades e Obras de Arte, Pratas e Jóias

511

Aparição da Virgem Maria a São Bernardo de Claraval

Mestre da Lenda de Santa Madalena, Attrib. (n. séc. XV/XVI)


Estimativa

40.000 - 60.000


Sessão 2

15 Abril 2021


Descrição

Óleo sobre madeira

27,5x37,5 cm


Categoria

Pintura


Informação Adicional

Nesta composição a Virgem Maria surge de pé a segurar o Menino Jesus que está sentado sobre os seus braços, e que envolve o seu pescoço pelo lado direito. Estamos perante a representação da Madonna “ablactatio” uma vez que o Menino Jesus não bebe do peito nú da Virgem.
No lado esquerdo da Virgem surge a figura de São Bernardo de Clairvaux que se ajoelha diante a figura da Virgem Maria que aperta o seu seio do qual jorra o leite, que molha os lábios de São Bernardo, evidenciando assim a representação da Madonna “lactation”

Existem várias versões desta composição, sendo de destacar a que estava na colecção do Dr. Hans Wetzlar e que foi atribuida pelo historiador da arte Max Friedländer ao Mestre da Lenda de Madalena.
Esse quadro foi colocado em leilão pela Sothebys no dia 9 de Junho de 1977 – The Collection of the late Dr. Hans Wetzlar onde surgiu catalogada com o número de lote 48. O mesmo voltou a aparecer no mercado de arte a 8 de Dezembro de 2005 na Sotheby’s de Londres, onde surgiu catalogado com o número de lote 203.
Entretanto, podemos evidenciar a circulação no mercado de arte dos seguintes quadros com uma composição muito semelhante:
- No leilão de 25 de Maio de 1988, da Sotheby's de Londres, onde surgiu um catalogado com o número de lote 62;
-No leilão de 21 de Novembro de 1991 da Christie’s de Londres, onde surgiu outro catalogado com o número de lote 109 – este atribuído a um seguidor de Bernard van Orley;
-No leilão de 21 de Abril de 2005 da Sotheby’s de Londres, onde surgiu mais um catalogado com o número de lote 14;

Proveniência: Etiqueta no verso a fazer referência à colecção de John Rushout, 2º Barão de Northwick


A colecção de arte do 2º Barão de Northwick

No verso desta pintura encontramos várias etiquetas, sendo a maior de todas, relacionada com a colecção de arte do 2º Barão de Northwick no ano de 1859.
É difícil traçar os primórdios da família Northwick. Uma série de mortes precoces, e um conjunto de herdeiros sem descendentes, não possibilitaram uma genealogia homogénea. O apelido Rushout surge associado a um francês, que se estabeleceu como comerciante na cidade de Londres, do século XVII. Rapidamente fez fortuna o que lhe permitiu adquirir Northwick Park na vila de Blockley nos limites de Gloudestershire e Worcestershire.
A sua determinação por ascender socialmente, levou a que o seu filho James Rushout (1644-1698) tivesse uma esmerada educação, o que lhe possibilitou alcançar uma carreira na política, com um lugar na Câmara dos Comuns do Parlamento Inglês, e uma nomeação em 1670 como embaixador em Constantinopla. Foi este o 1º Baronete de Northwick Park que ao morrer, um ano depois de ser nomeado embaixador, deixou ao seu filho, Sir James (1676–1705), todo o património que mais tarde viria a ser herdado pelo seu neto (1701–1711) e pelo seu 4º filho (1685-1775) – o 3º baronete e consecutivamente o 4º baronete de Northwick.
A ascensão inesperada do 4º baronete obrigou-o a renunciar à vida no exército e a casar-se, no ano de 1729, com Lady Anne Compton, a sexta filha de George Compton, 4º Conde de Northampton, com quem teve um filho e duas filhas. Após uma proeminente carreira na política, faleceu a 2 de Fevereiro de 1775 sendo sucedido pelo seu filho Sir John, 5º Baronete de Northwick.
Tendo estudado em Oxford (onde se matriculou em1756), foi eleito Membro do Parlamento no ano de 1761 onde ocupou um lugar até 1796. No ano seguinte recebeu o título de 1º Barão de Northwick, e em 1799 tornou-se membro da Sociedade de Antiquários. A sua morte no ano de 1800 levou a que o seu recente título fosse herdado pelo seu filho.
O 2º Barão de Northwick nasceu em 1770 e ao contrário da maioria dos seus contemporâneos não estudou numa das principais universidades do Reino Unido. Nos anos de 1780 foi enviado para Neuchâtel na Suíça e durante a década de 1790 realizou a viagem do Grand Tour pelo continente europeu. Durante esta época traçou amizades com figuras iminentes como Edward Gibbon, Horatio Nelson, o diplomata Sir William Hamilton e a sua esposa Ema Hamilton. Mas também com artistas italianos como Antonio Canova e Vincenzo Camuccini.
As convulsões vividas na Europa no final do século XVIII, foram propícias aos colecionadores, e o Barão rapidamente se apercebeu da ocasião para, através dos conselhos de especialistas e de conhecedores como William Hamilton e Payne-Knight, iniciar a elaboração de uma colecção de obras de arte. Tendo-se dedicado inicialmente a pequenos objectos como moedas antigas, pedras preciosas, camafeus e intáglios, rapidamente começou a dedicar-se à aquisição, ocasional, de gravuras e de pinturas.
À medida que o século XVIII chegava ao fim, as novidades do agravamento do estado de saúde do seu pai eram mais recorrentes. Quando regressou a Inglaterra para reclamar a sua herança, deparou-se com várias propriedades dispersas pelo país. Através da modernização da exploração das mesmas, rapidamente conseguiu atingir uma riqueza considerável que acabou por lhe aguçar ainda mais o já existente gosto por coleccionar obras de arte.
Nas primeiras décadas do século XIX, altura em que desenvolveu contactos com grandes negociantes de obras de arte e com outros coleccionadores, o seu interesse recaiu, principalmente, pela pintura tendo começado a coleccioná-la de forma íntegra, organizada e recorrente. Mas, a carência de espaço para exibir a sua colecção, rapidamente contribuiu para a aquisição de uma nova propriedade na cidade de Londres, num exclusivo empreendimento adjacente a Hyde Park.
Como a colecção continuou a crescer, no início na década de 1830 criou uma nova ala em Nortwick Park para albergar a pintura. Mas, no ano de 1838 a mesma já era demasiado pequena e, adquire Thirlestaine House – localizada nos arredores de Chektenham – à qual foram acrescentadas, constantemente, novas galerias e alas, entre 1840 e 1855.
Nesta altura começa a receber visitantes aos quais exibia a sua colecção, algo que aconteceu até aos últimos anos da sua vida, sendo exemplo disso o álbum “Notes and sketches on works of art in the collection of John Rushout, 2nd Baron Northwick of Thirlestaine”, da autoria do artista e historiador da arte Sir George Scharf (1820-1895), hoje guardado na Gallery de Londres de desenhos, que nos relata através do desenho o que o mesmo viu na colecção entre os dias 10 e 13 de Novembro de 1856.
Simultaneamente, envolveu-se na vida cultural de Londres, sendo membro da Sociedade de Antiquários de Londres e da Sociedade de Dilettanti. Sabe-se que era um participante regular dos leiloes da Christie’s, e que se envolveu na criação de instituições que tinham como principal propósito levar a arte a um público geral, como é o caso do British Institution, fundado em 1805.
Não demorou muito para que se tornasse numa figura pública no mundo da arte, como se pode verificar pela descrição feita, no final do século XIX, em “Art Sales: A History of Sales of Pictures and Other Works of Art”, por George Redford (1785-1860):
“He (Lord Northwick) was a most pleasant and cheerful gentleman, extremely simple and unpretending in his manner, with a slight, rather short, figure, and a face, round, smiling, and fresh in complexion. I remember him well as an ‘habitué’ of Christies, more than forty-two years ago, and in summer he generally wore a suit of Nankeen, a kind of cool dress which has long since disappeared”

O 2º Barão de Northwick morreu no ano de 1859, pouco antes de completar 90 anos, e, a partir daqui, iniciou-se a dispersão da sua colecção. Sem ter deixado testamento, filhos ou herdeiros, toda a sua colecção acabou por ser vendida pela Mr. Philipps, a partir do dia 26 de Julho de 1859, num processo que durou vinte e um dias e que se prolongou para o início do ano de 1860.
A imprensa da altura cobriu todos o processo, e relatou não só as vendas, como os preços e os compradores. Mas, o rasto das obras acabou por se perder, e hoje apenas se localizam algumas obras, na National Gallery em Londres, embora nem todas as obras tivessem abandonado Thirlestaine House, pois o 3º Barão de Northwick (1811–1887) acabou por adquirir um considerável número de pinturas. No entanto, já no século XX, com a morte do seu descendente e herdeiro, em 1964, o Capitão Spencer-Churchill, as mesmas acabaram por ser vendidas pela Christie’s, e por desaparecer para a mão de coleccionadores anónimos.

Bibliografia:
Oliver Bradbury e Nicholas Penny, “The Picture Collecting of Lord Northwick: Part I”in The Burlington Magazine, 144, No. 1193 (2002), pp. 485-496.
Oliver Bradbury e Nicholas Penny, “The Picture Collecting of Lord Northwick: Part II” in The Burlington Magazine, 144, No. 1195 (2002), pp. 606-617.
Frida Forsgren, “The Rise and fall of Leonardo’s Christ Among the Doctors in Bernt Holm’s Art Collection at Gimle Gård” in Journal of Early Modern Studies, 2020, pp.99-108.



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