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Adoração dos Três Reis Magos

Sebastiano Conca Attrib. (1680-1764)


Estimativa

22.000 - 30.000


Sessão 2

3 Junho 2026



Descrição

Óleo sobre cobre
Representando a cena da Adoração dos Magos, com a Virgem sentada à direita, segurando o Menino Jesus ao colo, diante dos três Reis Magos e respectivo séquito
Composição organizada em torno da figura do Menino, com um dos Magos ajoelhado em primeiro plano, outro sentado segurando oferta, e um terceiro à esquerda, acompanhado por figuras com turbantes, estandarte e camelo
No plano superior observam-se anjos entre nuvens e a estrela de Belém, projectando o seu raio em direcção à cena principal
Fundo arquitectónico com ruínas, paisagem escurecida e apontamentos de céu à esquerda

62.2x76.9 cm


Categoria

Pintura


Informação Adicional

Proveniência:
Adquirido na Sotheby’s, em Londres, entre 20 e 29 de julho de 2020, no leilão Old Master Day Sale including Old Master Paintings, Drawings and British Works on Paper, lote 146.


Nota

Esta pequena pintura sobre cobre representa a cena da Adoração dos Reis Magos, que surgem representados à esquerda e ao centro com as suas oferendas, acompanhados pelo seu séquito de exóticos acompanhantes (três pajens, alguns soldados, vários camelos, etc), e com a presença da Sagrada Família, à direita, com a Virgem, o Menino e São José num opulento trecho de ruínas clássicas. Em cima, uma glória de anjinhos, entre nuvens, enquadra a célebre Estrela de Natal citada no Evangelho de São Mateus, ou seja, o misterioso astro anunciador do caminho que teria guiado os magos do Oriente até Belém e que certa tradição astrológica identificou com o cometa Halley.
Trata-se de um cobre que mostra os estilemas eruditos da pintura de Sebastiano Conca e apontam para uma clara filiação desta peça sacra na sua escola. O pintor, natural da cidade de Gaeta, no Lazio, mas formado em Nápoles junto ao mestre Francesco Solimena (1657-1747), irá ter em Roma o seu lugar de triunfo para os seus dotes pictóricos e a sua largueza compositiva, cumprindo aí destacados empreendimentos quer para o Papa Clemente XI, quer outros altos dignitários da Igreja e da nobreza. Conca foi colaborador de Carlo Maratta (1625-1713) e de seguida, ao abrir oficina, será mestre de Corrado Giaquinto, de Pompeo Batoni e de outros destacados nomes desse Barroco proselitista que também serviu o mercado português do tempo de D. João V e que, em fase mais tardio, ainda encontrou boa recepção europeia em obras devocionais em datas avançadas da segunda metade do século XVIII.
Um quadro atribuído com toda a segurança a Conca e absolutamente similar a este, tanto em composição como em diversos pormenores de figuração, é a Adoração dos Magos pintada cerca de 1707-1710 (óleo sobre tela, 50 x 67 cm) que se encontra no Palazzo Corsini, em Roma. O quadro atesta as razões de ser de Conca ser considerado um expoente do Barroco proselitista do Settecento italiano, com uma vasta produção de temas sacros inspirados na lição bolonhesa da centúria precedente mas com uma atmosfera mais cromática é quente e diversificada de matizes. O desenho é, nesta tela, muito seguro, com pormenores de requinte na caracterização do séquito dos magos, assim como as arquitecturas de rovine e, sobretudo, na bela definição luminosa da Virgem aureolada, expondo o Menino Jesus à adoração dos reis, com uma glória de anjinhos sobre novelos de nuvens.
Já no cobre aqui analisado se verificam simplificações compositivas a nível de vários pormenores, que apontam para se tratar de uma versão ulterior da mesma composição de Conca, menos cuidada no seu acabamento (como se verifica na caracterização de Maria, que embora corresponda ao cânone do mestre, está longe, todavia, da transparência de modelação da mesma figura na tela de Roma). As variações formais são do mesmo modo significativas, tanto na pose de São José, à direita, que surge acompanhada neste cobre por um jovem do séquito dos magos que não figura na tela romana e é de factura mais débil, assim como na ausência da bela figura feminina em contrapposto que na tela do Palazzo Corsini se agita à esquerda mas que desapareceu nesta versão, sendo substituída por uma torpe figura de pajem que segura a capa vermelha do rei mago genuflexionado em primeiro plano.
Face a tais elementos de análise formal e de cotejo iconográfico-estilístico, é de crer que este cobre do primeiro terço do século XVIII será uma versão de atelier, como tantas outras produzidas por Sebastiano Conca ou, à sua sombra, por seus discípulos e epígonos.
 
Nota: sobre a tela do Palazzo Corsini, cf. o catálogo, dirigido por M. Di Marco, Sebastiano Conca (1680-1764), Palazzo De Vio, Gaeta, 1981, cat. p. 92 (n. 4).
 
Vítor Serrão
Historiador de Arte
Prof. Catedrático Emérito da Universidade de Lisboa


Sebastiano Conca e a Adoração dos Magos: Entre o classicismo barroco e sensibilidade do rococó

O quadro que agora trazemos a leilão leva-nos a falar do artista Sebastiano Conca (Gaeta, 1680 – Nápoles, 1764). Trata-se de uma das figuras centrais da pintura italiana do primeiro Setecentos, tendo desempenhado um papel determinante na transição entre o barroco tardio romano e a sensibilidade mais luminosa, elegante e decorativa do rococó.
Formado em Nápoles, na oficina de Francesco Solimena (1657-1747), Conca assimilou inicialmente a solenidade compositiva e o vigor plástico da tradição napolitana, mas revelou, desde cedo, uma inclinação pessoal para soluções mais claras, menos densas e mais intimistas. Essa autonomia precoce torna-se logo visível nas suas primeiras obras napolitanas e na forma como progressivamente abandona o peso volumétrico do mestre em favor de uma construção mais aérea, de uma paleta mais leve e de um desenho de grande elegância.

A experiência Romana
A deslocação para a cidade Roma, por volta de 1706-1707, foi decisiva para a consolidação da sua carreira. Na capital pontifícia, integrou-se rapidamente no circuito das encomendas e das obras de carácter eclesiástico, impondo-se como um dos intérpretes mais refinados da pintura religiosa do seu tempo.
A sua produção romana inicial, embora relativamente discreta em termos quantitativos, é particularmente importante para compreender a génese do seu estilo. Antes de 1720, contam-se algumas obras-chave, entre as quais a Adoração dos Magos da colecção do Museu de Tours, datada de 1707, as duas Allegorie da Galleria Spada, o Jeremias de San Giovanni, na Basílica de São João de Latrão, datado de 1718, bem como os ciclos de San Clemente e outras pinturas devocionais do mesmo período. Nestas obras, evidencia-se uma clara tendência para o classicismo religioso, com ecos de Carlo Maratta (1625-1713), Giuseppe Passeri (1654-1714) e Giuseppe Bartolomeo Chiari (1654-1727), embora já em diálogo com o gosto rococó emergente.
A partir da década de 1720, a sua reputação torna-se plenamente europeia. Recebeu então encomendas importantes para Torino, Roma, Siena e outras cidades, afirmando-se como uma figura de relevo da Accademia di San Luca, onde se consolidou como herdeiro, continuador e renovador da grande decoração monumental romana.
O seu estilo revelou sempre uma notável flexibilidade, adaptando-se às diferentes escalas e funções. Nas grandes composições de altar e nos programas de teto, a sua linguagem é mais solene, arquitectónica e marattesca. Já nas telas de gabinete, surge uma faceta mais íntima, arcádica e lírica, frequentemente associada à emergência do rococó romano. É precisamente essa versatilidade que explica a ampla circulação da sua obra em colecções aristocráticas e eclesiásticas de toda a Europa.


A Adoração dos Magos

No contexto da sua produção, a Adoração dos Magos agora apresentada em leilão deve ser entendida como uma composição madura, de plena segurança formal, na qual o artista alia a solenidade do tema à elegância do desenho e à fluidez cromática. O motivo, pela sua natureza, favorece uma encenação cerimonial: a Virgem e o Menino constituem o centro hierático da cena, enquanto os Reis Magos, em diferentes graus de aproximação e veneração, introduzem movimento, hierarquia e teatralidade.
Na pintura em análise, a composição organiza-se de forma clara e equilibrada, com o grupo sacro em primeiro plano. Em simultâneo, o espaço arquitectónico e paisagístico funciona como enquadramento, e a presença de anjos no registo superior reforça a dimensão epifânica do episódio. Por sua vez, a paleta cromática, dominada por azuis intensos, vermelhos quentes, dourados e ocres, confirma o gosto do artista pelo brilho controlado e pela riqueza têxtil.
Do ponto de vista estilístico, a obra revela traços muito característicos de Conca: figuras de contorno suave, drapeados amplos e fluentemente dispostos, rostos de grande delicadeza e uma construção espacial que evita a rigidez, privilegiando um movimento contínuo e cerimonial. A pintura inscreve-se claramente no chamado classicismo barroco romano, isto é, numa atualização elegante da tradição marattesca, já sob uma sensibilidade mais leve e decorativa.
O tratamento dos tecidos, o uso da cor e a disposição das personagens apontam para uma fase em que Conca domina plenamente o seu vocabulário e o aplica com extraordinária eficácia a uma iconografia de grande prestígio. A cronologia mais plausível para esta pintura situa-se, com segurança, entre a fase romana madura e o início da maturidade tardia, provavelmente entre os anos de 1730 e 1750, podendo mesmo aproximar-se do momento em que o artista desenvolve obras de pequeno e médio formato destinadas a coleccionadores e a ambientes devocionais privados.

Considerações finais
A comparação com a Adoração dos Magos do Museu de Tours, datada de 1707, sugere uma formulação mais precoce e compacta do tema, ainda muito próxima da ortodoxia barroca inicial. Já a versão conservada no Princeton University Art Museum, de cerca de 1750, revela uma solução mais depurada, íntima e ligeiramente mais suave, típica da fase tardia do pintor. A obra aqui em estudo parece situar-se, assim, entre esses dois polos: menos compacta e mais desenvolta do que a de Tours, mas também menos ténue do que a de Princeton, o que permite propor uma datação intermédia-alta no percurso de Conca.
Em termos comparativos, esta pintura aproxima-se ainda de outras obras museológicas do artista ou da sua órbita, nomeadamente dos conjuntos de San Clemente e de San Giovanni, na Basílica de São João de Latrão, que revelam uma clara estrutura narrativa e uma sólida construção classicista, bem como dos pequenos quadros de devoção hoje conservados em colecções públicas e privadas, onde sobressai a leveza atmosférica e a sensibilidade cromática.
Do ponto de vista do mercado e da atribuição, trata-se de uma obra que se enquadra plenamente no perfil de Sebastiano Conca: autor de vasta produção, muito apreciado pelos contemporâneos, com ampla circulação internacional e grande capacidade de adaptação a encomendas de diferentes escalas e níveis de prestígio.

Tiago Franco Rodrigues



Leilão Terminado