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Sem título

António Quadros (1933-1994)


Estimativa

10.000 - 15.000


Sessão

8 Outubro 2026



Descrição

Óleo sobre madeira

81,5x122 cm

106x146,5 cm (com moldura)


Categoria

Arte Moderna e Contemporânea


Informação Adicional

Com moldura executada pelo artista.


Ensaio de Catálogo

António Quadros

“Ignoremos a ironia fácil dos que julgam a verdade alcançada na pobresa dum esquema certinho aos olhos da razão. Que arte, é ter o coração na cabeça, e um crucifixo não é um cabide nem uma forca. É uma alma em sangue. É um anti-esquema. Recusemos esta arte, que é um formalismo estéril.” (António Quadros, Manifesto da Pintura, 1958)

Na exposição que realizou na ESBAP, em 1958, António Quadros distribuiu aos visitantes o Manifesto da Pintura, propondo, num tom provocatório, uma alternativa à escola francesa e ao formalismo que considerava estéril e orgulhoso. Recusando essa via como modelo para a renovação da pintura, sugere que se atenda àquilo que é próprio da cultura portuguesa: “Olhei de volta e vi um povo, que era o meu e tinha a resposta: cerâmicas, azulejos dos XVII e XVIII, utensílios gravados, rendas, bordados, santões, ex-votos, sei lá! Era um mar” (António Quadros, Manifesto da Pintura, 1958).

António Quadros transpõe para a sua obra um repertório visual e formal que recupera da tradição popular portuguesa, particularmente do seu imaginário fantástico. Nos seus trabalhos habitam monstros, criaturas híbridas, figuras religiosas, cabeçudos e elementos da natureza como animais, folhas e flores. Por vezes, representa cenas da sua infância passada entre Santiago de Besteiros, a Figueira da Foz e Lisboa. Interessa-se pelo figurado de barro de Barcelos, que cruza o quotidiano com o fantástico, tendo trabalhado no sentido de o divulgar, em especial a obra da ceramista Rosa Ramalho (1888-1977). Ao recuperar elementos da tradição popular, a obra de Quadros assume uma dimensão mágica, que vai para além das soluções formais. Por sua vez, na estilização dos referidos motivos populares, António Quadros aproxima-se de alguns dos caminhos seguidos por artistas modernos como Picasso (1881-1973), Amadeo de Souza-Cardoso (1887-1918) ou Almada Negreiros (1893-1970), que procuraram, através do recurso a elementos menos eruditos, renovar a linguagem plástica, explorando formas mais sintéticas e depuradas. Longe da lógica propagandística do discurso do Estado Novo, que se apropria das tradições e cultura popular para reforçar a ideia de identidade nacional, o trabalho de António Quadros articula o que é próprio dessa cultura popular com o universo intelectual, decorrendo numa linguagem mais reconhecível e, por isso, mais universal.

O seu trabalho é predominantemente figurativo, por vezes mais depurado, de relação mais estreita com a disciplina do desenho, por outras mais expressivo, resultando em composições mais dinâmicas, com uso de cores contrastantes e intensas em manchas menos contidas, menos fechadas na figuração. A cor ocupa, aliás, um lugar importante na sua obra. Longe do seu uso naturalista, esta funciona como elemento de construção da composição, definindo o espaço e criando tensão. No seu percurso surgem também obras de cariz mais abstrato, onde permanece, contudo, alguma ideia de figuração, sugerida por elementos da composição ou pela legenda da obra. A palavra desempenha, aliás, um papel preponderante na sua produção plástica.

Uma das características mais marcantes de António Quadros é a sua personalidade multifacetada e a capacidade de desenvolver diferentes atividades artísticas e intelectuais. Foi, para além de artista plástico, poeta, ceramista, gravador, professor, pedagogo, entre outras coisas. A sua atividade enquanto poeta desenvolveu-a com igual empenho à de artista plástico, sendo frequente a contaminação entre estas duas práticas. Essa estreita relação revela-se no surgimento da palavra como elemento das suas composições, explorando simultaneamente o seu valor semântico e a sua dimensão formal, através do desenho e da composição das próprias letras. Muitas vezes a palavra aparece nas molduras produzidas pelo artista, introduzindo uma camada adicional de leitura e fazendo da própria escrita parte integrante da obra, podendo complexificar o entendimento da mesma.

Integrada, por alguns autores, no surrealismo português, a obra de António Quadros concilia realidade e sonho num universo em que se tornam difíceis de separar, lembrando, nesse sentido, Chagall (1887-1985). Mas mais do que encerrá-la numa categoria, importa entendê-la como parte de uma obra maior, da qual fazem parte as diversas atividades e experiências a que se entrega como forma de entender e intervir no mundo.

Maria Moser

Bibliografia/ Literature:
ALMEIDA, Bernardo Pinto de, “António Quadros”, in AA.VV., António Quadros. O Sinaleiro das Pombas, Porto, Árvore – Cooperativa de Actividades Artísticas, C.R.L., 2001, pp. 73-195.
GOMES, Rita Baptista Maia, António Quadros (1933-1994). Para uma cartografia do seu “mundo.próprio”, tese de doutoramento em História da Arte, especialidade em Museologia e Património Artístico, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universidade Nova de Lisboa, 2022.
LAMBERT, Maria de Fátima, “António Quadros – Utopia, Manifesto & Artes”, Latitudes. Cahiers lusophones, nº 25, décembre, 2005, pp. 76-83.



Leilão Terminado