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"3 Circles"
Ben Nicholson (1894-1982)
Estimativa
150.000 - 200.000
Sessão
8 Outubro 2026
Valor de Martelo
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Painted Relief
Platex, cartão e contraplacado, recortados, colados, pintados e incisos, montados em grade de madeira
Assinado e datado Jan 57 no verso
50,5x59x2 cm
Categoria
Arte Moderna e Contemporânea Pintura
Informação Adicional
Com carimbo da André Emmerich Gallery no verso.
Nota sobre o lote
Ben Nicholson: The Poetry of the Surface
3 Circles, 1957
Existem obras que se impõem de imediato e outras que conquistam devagar, à medida que o olhar se demora. 3 Circlespertence à segunda família. À primeira vista, é uma composição discreta de rectângulos em tons de areia, ocre e pedra. Depois, a luz rasante revela o relevo: as arestas, as camadas, as pequenas sombras entre os planos. Por fim, surgem os círculos, três linhas finíssimas gravadas na superfície, quase como segredos.
Ben Nicholson (1894–1982) cresceu rodeado de arte. O pai, Sir William Nicholson, foi um dos pintores e ilustradores mais admirados da Inglaterra eduardiana, e a mãe, Mabel Pryde, era também pintora. Desta herança nasceu um amor pela natureza-morta que o acompanhou toda a vida: jarros, copos e tampos de mesa que atravessam toda a sua carreira, mesmo quando a figuração parece ter desaparecido.
O ponto de viragem deu-se no início dos anos 30, em Paris. Nicholson visitou os ateliers de Picasso, Braque, Brancusi, Arp e, sobretudo, de Piet Mondrian, cujo estúdio branco e depurado o marcou profundamente. Em 1934 criou os seus primeiros relevos brancos, entalhando e recortando a madeira em planos rectangulares e circulares, pintados inteiramente de branco. Causaram sensação no meio artístico britânico e são hoje vistos como um momento fundador da abstracção moderna em Inglaterra. Com a escultora Barbara Hepworth, com quem casou, e com Naum Gabo, esteve no centro da vanguarda londrina da década, que teve na publicação Circle (1937) o seu manifesto.
Em 1939, com a guerra a aproximar-se, Nicholson e Hepworth mudaram-se para St Ives, uma pequena vila piscatória na Cornualha. Ali viveu quase vinte anos, e a paisagem entrou definitivamente na sua obra: a luz atlântica, os muros de granito, as casas caiadas, a pedra polida pelo mar e pelo vento. A abstracção de Nicholson nunca foi fria nem puramente geométrica. Respirou sempre o mundo real.
Os anos 50 trouxeram o reconhecimento internacional. Nicholson recebeu o Prémio Carnegie em 1952, foi distinguido na Bienal de Veneza em 1954, recebeu o primeiro Prémio Internacional de Pintura Guggenheim em 1956 e, em 1957, precisamente o ano desta obra, o Grande Prémio de Pintura da Bienal de São Paulo. Foi também nesta altura que regressou em força ao relevo, agora numa linguagem nova, mais quente e mais táctil. Pouco depois, em 1958, trocou St Ives pelo Ticino, na Suíça, nas margens do Lago Maggiore.
3 Circles está assinada e datada de Janeiro de 1957, no auge deste período de maturidade. Nicholson construiu-a sobrepondo e colando placas de platex, cartão e contraplacado, recortadas em rectângulos de espessuras e dimensões variadas. Pintou-as depois em camadas finas, raspou-as, lixou-as e voltou a pintá-las, até as superfícies parecerem encontradas e não feitas: pedra calcária, reboco antigo, papel desbotado pelo sol.
Repare-se na margem exterior, onde o artista deixou à vista a textura em trama do platex. Não é por acaso. Nicholson gostava de revelar a natureza dos materiais, e essa quadrícula mecânica estabelece um contraste delicado com as zonas trabalhadas à mão no interior.
A composição ergue-se como uma pequena arquitectura. Os planos avançam e recuam, apoiam-se uns nos outros e encaixam como pedras num muro de pedra seca. A paleta é deliberadamente contida, com areias, beges rosados, um cinzento pálido e um único rectângulo de ocre dourado que funciona como fonte de calor e de luz de toda a obra.
E depois há os círculos. Nicholson não os pintou: desenhou-os com uma ponta afiada directamente na superfície. São três, e nenhum é igual: um grande, inscrito no plano cinzento à esquerda; outro, nítido e luminoso, sobre o ocre; e um terceiro, quase a desvanecer-se, no plano claro inferior, que só se revela a quem se aproxima. O círculo foi uma obsessão ao longo de toda a sua carreira. Pode evocar o rebordo de um prato ou a boca de um copo, ecos das antigas naturezas-mortas, mas também um sol, uma lua ou simplesmente a forma perfeita. Nicholson preferia não escolher. A força da obra reside precisamente neste equilíbrio entre rigor geométrico e sugestão poética.
Os relevos pintados são amplamente considerados o núcleo mais original e mais procurado da obra de Nicholson. Nenhum outro artista da sua geração fez algo semelhante, a meio caminho entre a pintura e a escultura. Relevos deste período integram colecções como a Tate, o Museum of Modern Art de Nova Iorque e o Kunstmuseum Basel.
3 Circles reúne tudo o que define o artista no seu melhor: economia de meios, sensibilidade à matéria, uma composição de precisão quase musical e aquela qualidade silenciosa que faz destas obras companhias para toda a vida. O carimbo da André Emmerich Gallery no verso liga-a ainda a uma das mais respeitadas galerias nova-iorquinas na defesa da arte abstracta do século XX.
É uma obra que pede tempo e que nos recompensa generosamente.
Leilão Terminado